Editorial desta sexta-feira (11), o jornal O Estado de S. Paulo, sob título “Gonet é suspeitíssimo”, afirma que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, não pode opinar com legitimidade sobre a eventual abertura de inquérito contra o ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal. O texto argumenta que, embora caiba institucionalmente à PGR se manifestar sobre investigação de ministro da Corte, “por razões óbvias” Gonet tem o dever de se declarar impedido na sessão que analisará o caso.
O editorial parte da premissa de que Moraes é suspeito de ao menos quatro crimes — corrupção passiva, advocacia administrativa, tráfico de influência e violação de sigilo funcional — por sua associação com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. O jornal reitera o contrato milionário de advocacia entre o Master e o escritório da mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes, e as mensagens trocadas até poucas horas antes da prisão de Vorcaro, em 17 de novembro de 2025.
O ponto central, porém, é a posição do próprio Gonet. Segundo o Estadão, o procurador-geral também aparece no relatório da Polícia Federal como uma das autoridades que teriam se beneficiado de “mordomias” pagas por Vorcaro. Mensagens atribuídas a Gonet, intermediadas pelo advogado Ciro Soares, incluem declarações de “saudades” do banqueiro, pergunta sobre uísque Macallan e charutos em um encontro e pedido para incluir o filho do PGR em uma dessas reuniões.
Para o jornal, essa proximidade torna incontornável o conflito de interesses: Gonet figura no mesmo relatório que deveria analisar e já pediu o arquivamento sumário da apuração, sem exame do mérito, com argumentos que o editorial compara aos de um advogado de Moraes — e de si mesmo.
O texto se insere em uma sequência de críticas do próprio Estadão ao PGR no caso Master. Em editorial anterior, o jornal chegou a afirmar que a permanência de Gonet na PGR se tornara “insustentável” e que ele deveria deixar o cargo para evitar o aprofundamento de uma crise moral no sistema de Justiça.
O caso Master explodiu após a liquidação do banco e a prisão de Vorcaro. Relatórios da PF revelaram uma teia de relações entre o banqueiro e autoridades, incluindo ministros do STF. O ministro André Mendonça, relator no Supremo, determinou a produção do relatório sobre as mensagens; Gonet contestou a competência dessa diligência e pediu a nulidade do documento.
Entidades como a Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal e setores da OAB já pediram que Gonet se declare suspeito. Uma ala da própria PGR avalia que as menções no relatório geram dúvidas suficientes para o afastamento do procurador-geral do processo, mesmo sem prova direta de crime atribuída a ele até o momento.
O editorial de hoje reforça a tese de que a suspeição não depende de prova cabal de favorecimento: a promiscuidade e o fato de o PGR participar do destino de um relatório que o cita já bastariam para o impedimento. A sessão do STF que deverá decidir sobre o relatório e sobre eventual investigação contra Moraes colocará essa tese à prova.
Deu no Diário do Poder



