Em um alerta contundente para a saúde mental de crianças e adolescentes no Brasil, pesquisadores das Universidades Federais da Bahia (UFBA) e do Sul da Bahia (UFSB) revelaram, em estudo publicado em março nos Cadernos de Saúde Pública, um aumento alarmante. Eles constataram uma elevação de 44,3% nas internações e 26,3% nas mortes por lesões autoprovocadas entre jovens no país, no período de 2013 a 2023. Esse cenário crítico, impulsionado pela vulnerabilidade emocional inerente à infância e adolescência e agravado por fatores como negligência, preconceito e violência, exige uma resposta imediata e coordenada para proteger a dignidade e o bem-estar dessa parcela da população.
A infância e a adolescência representam fases delicadas na formação humana. É nesse período que a personalidade, as habilidades sociais e a resiliência costumam ser desenvolvidas. No entanto, essa efervescência emocional também torna os jovens mais vulneráveis diante de eventos estressores ou traumáticos. E, segundo o estudo, o Brasil vive um momento crítico de crescimento nos casos de lesões autoprovocadas.
A análise de registros do Sistema de Informações Hospitalares (SIH) entre 2013 e 2023, que compila dados do Sistema Único de Saúde (SUS), revelou que o Brasil testemunhou 18.382 internações e 261 óbitos nesse período. Tais números se traduzem em aumentos de 44,3% nas internações e 26,3% nas mortes, um indicativo claro de uma emergência de saúde pública.
A médica Gabriela Garcia de Carvalho Laguna, residente em Medicina de Família e Comunidade na UFSB e autora correspondente do artigo, explica: “Comportamentos autolesivos podem ser compreendidos como uma forma de lidar com um sofrimento emocional intenso, complexo e que não pode ser explicado por uma única causa”. Ela destaca que múltiplos fatores contribuíram para a escalada dos casos ao longo da década.
Os processos biológicos relacionados à construção da identidade e do senso de pertencimento são apenas a ponta do iceberg. A Cartilha para prevenção da automutilação e do suicídio, do Ministério da Saúde, aponta que a fragilidade de crianças e adolescentes a sofrimentos psicológicos pode ser amplificada por fatores como negligência parental, conflitos familiares, preconceito, violência (seja ela psicológica, física ou sexual), problemas de saúde, abuso de substâncias, privação de sono, transtornos mentais e o uso excessivo das redes sociais.
O acesso facilitado à tecnologia ajuda a aproximar pessoas e estimular conversas. Por outro lado, também pode criar ambientes hostis, marcados por isolamento, pressão estética e agressões recorrentes. O psiquiatra Elton Yoji Kanomata, professor do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein (IIEP), sublinha a gravidade do bullying. “Ele vai muito além de ‘zoar’ e ser ‘zoado’. Há uma violência intensa, não só física, mas psicológica, que cria um estado de submissão. A vítima se sente como refém”, alerta o especialista.
Não à toa, a tendência de aumento das internações manteve-se praticamente durante toda a década. A única exceção a essa tendência de alta ocorreu em 2020, um período marcado pela subnotificação de casos devido à sobrecarga dos serviços de saúde e à redução do acesso a redes de proteção, como as escolas, em meio à pandemia de Covid-19. Apesar da menor notificação, a médica Laguna observa que “o maior número de mortes nesse ano sugere que os casos de autolesão foram mais graves, possivelmente associados às dificuldades de lidar com adversidades e gerenciar desafios psicossociais potencializados pela pandemia, incluindo isolamento social, dificuldades econômicas, conflitos interpessoais e maior tempo de uso das redes sociais”.
Do ponto de vista demográfico, o levantamento mostra que adolescentes de 15 a 19 anos, moradores das regiões Sul e Sudeste, foram os mais atingidos. Embora as internações tenham sido mais comuns entre o sexo feminino, os óbitos ocorreram com maior frequência entre os meninos, o que indica diferenças no padrão e na gravidade das tentativas de mutilação e suicídio. Jovens pretos e pardos foram os mais afetados, liderando os números de internações e mortes. Isso evidencia a ligação direta entre o sofrimento mental dessa população e experiências de racismo, desigualdades socioeconômicas, desemprego parental e a carência de acesso a direitos básicos como saúde, educação, moradia e alimentação.
Sinais de risco e quando buscar ajuda
Alterações de humor — marcadas, sobretudo, por episódios de ansiedade, irritabilidade e tristeza —, isolamento social, perda de vínculos de amizades, recusa em sair de casa, queda no rendimento escolar, diminuição de energia e aumento no tempo de consumo de telas são alguns dos sintomas típicos apresentados por pessoas em sofrimento psicológico. E merecem atenção.
Não há um roteiro exato para identificar a vulnerabilidade emocional que precede as práticas de autolesão. Cada pessoa tem suas particularidades e, por isso, deve ser acompanhada considerando suas características específicas. Daí a importância da presença e participação de pais e mães no desenvolvimento infantil. Kanomata enfatiza: “Devemos respeitar a privacidade e estimular a autonomia e a independência dos jovens, mas isso não significa ignorar completamente o que acontece em suas vidas”.
Quando o sofrimento já é visível, mas ainda não afeta drasticamente a rotina, o ideal é que os responsáveis conversem com professores e a coordenação pedagógica da escola. Assim, a instituição pode ficar mais atenta às dinâmicas do aluno frente à sala de aula e aos seus colegas.
Se o quadro apresentar maior gravidade, a busca por ajuda profissional na área da saúde mental torna-se imperativa. Não há um caminho único: pode-se procurar um psiquiatra ou um psicólogo, sendo o ideal que ambos sejam acionados, ainda que não simultaneamente.
Gabriela Laguna salienta: “O direcionamento de políticas públicas para estratégias de prevenção na atenção primária pode contribuir para reduzir as internações hospitalares por autolesão, além de melhorar a qualidade de vida e a saúde mental dos jovens”. Ela reforça a necessidade de “investigar situações de vulnerabilidade, como o bullying, e intervir precocemente, antes que a autolesão se estabeleça como mecanismo de enfrentamento”.
É fundamental, ainda, fortalecer a capacitação profissional para acolher e manejar esses quadros, além de ampliar os programas de tratamento para comportamentos autolesivos. Isso abrange expandir o acesso ao suporte médico, psicológico e à psicoeducação, e integrar iniciativas intersetoriais com escolas, ONGs e instituições privadas.
“Todos enfrentamos sofrimento emocional. O grande desafio é discernir quando esse problema se torna desproporcional, gera dor intensa e leva à disfuncionalidade”, pontua o médico do Einstein. “A partir do surgimento de sinais, um canal de comunicação aberto entre pais e filhos é fundamental, pois são eles que podem oferecer apoio e auxiliar na busca por ajuda adequada.”




