Presidente da Febraban citou ‘lealdade’ a Vorcaro e o chamava de ‘irmão’ em mensagens

O presidente da Febraban, Isaac Sidney, escreveu a Daniel Vorcaro que “lealdade é o maior prestígio que posso lhe oferecer” e indicou que defendia o banqueiro — a quem chamava de “irmão” — diante de autoridades, inclusive do Banco Central. É o que consta em mensagens obtidas pela Polícia Federal a partir do celular do ex-dono do Master.

Os primeiros diálogos dessa natureza ocorreram em dezembro de 2023. Na ocasião, Vorcaro procurou Sidney, que ficou de retornar após reuniões. Dada a dificuldade do contato, o ex-banqueiro brincou: “já tive bem mais prestígio”.

Mais adiante, Sidney respondeu:

“Um exemplo claríssimo de que não procede foi o que ocorreu na semana passada, quando você nem imagina o que ouvi do presidente do BC e de um diretor, mas saí em sua defesa. Às vezes, o prestígio não é o que se vê, mas o que nem se sabe. Lealdade é o maior prestígio que posso lhe oferecer”.

À coluna, Sidney justificou que as “referências a ‘lealdade’, ‘defesa’ ou temas regulatórios refletem interlocuções institucionais com bancos associados e relações pessoais mantidas com dirigentes de bancos, compatíveis com a função exercida, sem qualquer mínimo indício de favorecimento, interferência indevida ou atuação ilícita em benefício do Banco Master ou de seu ex-controlador”. Disse ainda que “era absolutamente impossível supor, à época dos diálogos, que o ex-controlador do Master viria ser acusado de um conjunto tão repugnante de fraudes e crimes” (leia a íntegra da nota ao final).

Naquele mesmo mês, o presidente da Febraban enviou uma mensagem a Vorcaro dizendo que o havia alertado há pelo menos seis meses que “as regras poderiam mudar”. Pela data e o teor da conversa, o texto parece se referir a uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) que limitava o uso pelos bancos de excedentes da captação de recursos do FGC.

Disse Sidney:

“Cheguei a levar inclusive o diretor-executivo do FGC e o vice-presidente da ABBC até o banco, juntamente comigo e dois diretores da Febraban, para que vocês tivessem a oportunidade de mostrar a lisura da atuação do banco. Ate um paper dos pontos críticos fiz chegar a você. FGC capitaneou o processo atuou firme nisso. Nao tenho ideia das mudanças que virão. Nao tive acesso ao texto. Não há quem possa dizer que tive participação na condução desse tema. De todo modo, na oportunidade que tive, ponderei com o BC que, qualquer que fosse a mudança, que houvesse uma transição, mas não sei sequer sobre o mérito do que virá. E torço para que o BC seja razoável e olhe para toda a indústria”.

Vorcaro lamentou as mudanças e disse que apenas os grandes bancos ganhariam com elas. O banqueiro as classificou como um “absurdo” e afirmou que “vai quebrar muito banco”. Emendou:

“A turma tá mirando em mim. Mas vao acertar outros 10”.

No diálogo que se segue, Vorcaro argumenta que não existe estudo de mercado para a regra, “a não ser nos frear”. O ex-dono do Master diz ainda que “o Itaú quer o caos”, mas pondera que estava “atendendo a pedidos do BC e não comprando a briga mais”.

Sidney aconselha:

“Não assuma esse desgaste. Foi o que tentei te dizer aquele dia do nosso breve encontro”.

Em pleno Ano Novo, no primeiro dia de 2024, o presidente da Febraban envia uma longa mensagem a Vorcaro e comenta sobre um suposto encontro entre o ex-banqueiro e Roberto Campos Neto.

“Fala, irmão. Que 2023 dificílimo!! Seja nosso Deus aquele que nos guardará em 2024.Terminei 2023 sob fortíssimo bombardeio das maquininhas, inclusive com uma ação penal ajuizada contra mim numa retaliação covarde. E o pior: com ajuda de alguns que considerava “amigos”. Você também terminou sob forte fogo cruzado dos concorrentes. No dia 22 estive com Roberto Campos numa reunião presencial e alguns CEOs pra tratar de Open Finance. Ele estava bem irritado sobre o tema do FGC e disse que iria receber você para uma conversa à tarde. Penso que a conversa ocorreu. Vamos nos encontrar pra falarmos”.

Nas conversas seguintes, os dois combinam encontros e até voos juntos. Também tratam sobre um evento em Londres, justamente às vésperas do fórum que reuniu autoridades dos Três Poderes na capital inglesa — aquele mesmo que teve degustação de uísque Macallan e charutos.

Escreve Sidney:

“Irmão, precisaria só saber qual será o dia quente em Londres: quarta, quinta ou sexta? Na sexta à noite eu preciso estar em Brasília em obediência a Deus. Só não estaria se Deus me autorizasse”.

Após receber a programação do evento, o presidente da Febraban comenta: “tem gente graúda aqui mesmo”. E pergunta se Luiz Carlos Trabuco, presidente do conselho de administração do Bradesco, iria. Diante da negativa de Vorcaro, ele indaga: “Mesmo com a ausência do Trabuco, você mantém a importância da minha ida (para a finalidade de que falamos no voo)?”. O banqueiro confirma: “Julgo que sim, as pessoas mais relevantes do país estarao juntas de modo desarmado em ambiente ultra restrito”.

No dia seguinte, Sidney escreve que precisa decidir a viagem e observa que sua inclinação é ir. Na mensagem, desabafa sobre o comparecimento do advogado Walfrido Warde, com quem trabalhou no escritório dele antes de assumir a presidência da Febraban, e sugere ter um “alvo” em comum com Vorcaro.

“Estou confiando no seu feeling para ir. Dei uma grande desanimada, confesso, com o envolvimento do Walfrido no evento, mas, mais cedo ou mais tarde, terei de encarar um encontro com ele. E preciso ser pragmático, pois você e eu temos um alvo mais relevante do que essa minha situação com o Walfrido. Estou encarando esse momento em Londres como uma momento que poderemos avançar bem no alvo”.

No dia do embarque, Sidney manifesta preocupação com a exposição no evento. Mas destaca que “o importante é termos, nós dois, algumas conversas para avançarmos nos nossos alvos”. O presidente da Febraban ainda volta a se queixar sobre a presença de Warde:

“Terei de encarar o Walfrido, que está por aqui e já está atrás de mim. Fácil, não, irmão. So Deus sabe o que já tive de suportar com a atuação dele nos bastidores”.

Procurado, Sidney enviou oito apresentações feitas, entre 2023 a 2025, aos presidentes de bancos e ao BC, com um diagnóstico das captações agressivas e propostas ao banco para mudança das regras do FGC. Também encaminhou ofícios assinados por ele que formalizaram alertas feitos ao BC sobre a atuação agressiva do Master na captação de depósitos garantidos pelo FGC.

Os documentos também são mencionados em seu posicionamento. Leia a íntegra abaixo:

“A Febraban foi a primeira voz do setor bancário a alertar o Banco Central sobre fatos que posteriormente revelariam a maior fraude do sistema financeiro. Ainda no final de 2023, a Febraban alertou o Banco Central da captação garantida pelo FGC, concentrada em alguns players que atuavam de forma agressiva, oferecendo seus títulos com taxas bastante elevadas.

Em três ofícios assinados pelo presidente da Febraban, a entidade formalizou a sua preocupação com o excessivo e rápido crescimento da exposição do FGC a um conjunto de bancos, alertando que a exposição passou de 1,7 vezes da disponibilidade do FGC, em 2018, para 4,6 vezes em 2024.

O presidente da Febraban liderou a defesa pública da Instituição Banco Central, sendo o primeiro dirigente setorial a se posicionar em apoio à liquidação do Master. A posição de apoio da Febraban ao regulador se traduziu, concretamente, em cinco notas públicas assinadas por seu presidente, não só em defesa da atuação do Banco Central, mas também pela rigorosa responsabilização dos gestores do banco liquidado.

O presidente da Febraban teve papel relevante na efetiva revisão das regras do FGC, para fortalecer a proteção do sistema contra fraudes.

Além de estarrecedor, era absolutamente impossível supor, à época dos diálogos, que o ex-controlador do Master viria a ser acusado de um conjunto tão repugnante de fraudes e crimes, tampouco de práticas destinadas à captura de agentes do Banco Central.

À época das conversas, Isaac Sidney presidia a Febraban e, nessa condição, mantinha interlocução regular com vários dirigentes de instituições financeiras, bem como como o presidente e diretores do Banco Central, no exercício das atribuições próprias da representação institucional da entidade.

As referências a “lealdade”, “defesa” ou temas regulatórios refletem interlocuções institucionais com bancos associados e relações pessoais mantidas com dirigentes de bancos, compatíveis com a função exercida, sem qualquer mínimo indício de favorecimento, interferência indevida ou atuação ilícita em benefício do Banco Master ou de seu ex-controlador.

Muito pelo contrário, os próprios diálogos demonstram, com muita clareza, que o ex-controlador do Master estava bem inconformado com a atuação dos grandes bancos representados pela Febraban, e que Isaac Sidney atuava dentro dos limites de sua representação institucional, sem participação na condução, influência ou tomada de decisões no âmbito do Banco Central.”

Lauro Jardim – O Globo

 

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