Jantar de Lula com empresários termina sem anúncios sobre ajuste fiscal

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou, na sexta-feira (25), de um jantar com empresários, banqueiros e executivos em São Paulo. O encontro reuniu mais de 700 pessoas e foi marcado por expectativas de anúncios relacionados à economia e ao ajuste fiscal.

Segundo relatos obtidos pelo Estadão com participantes dos setores financeiro, industrial e imobiliário, sob condição de anonimato, parte da plateia deixou o evento frustrada. Dois dos presentes chegaram a classificar o encontro como “quase desrespeitoso”, em razão da percepção de que os discursos se concentraram nas realizações do governo e não abordaram de forma crítica a política de gastos.

O evento estava previsto para começar às 19h, mas teve início efetivamente às 20h40. Antes de Lula falar, houve cerca de 1h40 de discursos de representantes dos organizadores Esfera Brasil, Prerrogativas e Parlatório, além de empresários, ministros e presidentes de instituições públicas. Alguns convidados, entre eles Milton Maluhy, do Itaú, deixaram o local antes da fala do presidente.

Parte dos empresários esperava anúncios concretos sobre cortes de despesas públicas ou até mesmo a indicação de um nome com maior credibilidade junto ao mercado para o Ministério da Fazenda. Nenhuma dessas medidas foi anunciada, e participantes avaliaram que o encontro assumiu um tom próximo ao de campanha eleitoral.

Críticas ao ajuste fiscal

De acordo com os relatos, alguns empresários esperavam que Lula demonstrasse maior preocupação com a possibilidade de perder a eleição e adotasse uma postura mais próxima do setor produtivo.

A avaliação também levou em conta medidas adotadas durante o governo para ampliar a arrecadação. Entre elas estão a tributação sobre lucros e dividendos e fundos exclusivos e offshores, além do aumento da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) incidente sobre instituições financeiras.

Basilio Jafet, vice-presidente do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi), afirmou que o jantar teve caráter de prestação de contas ao empresariado.

“O jantar foi nitidamente de prestação de contas ao empresariado, já que o governo, no decorrer da gestão, tomou medidas que aumentaram seu imposto e tentou outras mais que, de maneira geral, não foram bem recebidas”, disse.

Jafet avaliou que o encontro permitiu compreender as posições do governo, mas afirmou que o tema fiscal não foi tratado com a profundidade esperada.

“O evento foi bom, no sentido de entender o que o governo está pensando, mas sentimos que o tema do ajuste fiscal não tenha sido levado com a profundidade que merece”, declarou.

Mercadante recebe elogios

Segundo o Estadão, entre os integrantes da mesa, o discurso de Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, foi apontado por participantes como o que mais aprofundou a discussão sobre o ajuste fiscal.

Mercadante também alterou o protocolo do encontro e cumprimentou representantes da plateia, entre eles o cientista político Eduardo Giannetti, a economista Claudia Costin, o empresário Emerson Kapaz, o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy, o empresário Carlos Sanchez, da EMS, o investidor Lírio Parisotto, o presidente da Febraban, Isaac Sidney, e Milton Maluhy, do Itaú.

Durante sua fala, Mercadante citou períodos em que os governos Lula adotaram medidas de controle fiscal, mencionando o fim da crise da dívida externa, os anos de superávits primários e a conquista do grau de investimento.

“Todos querem se desendividar e o presidente, mais do que ninguém, também quer”, afirmou Mercadante.

O advogado Ernesto Tzirulnik, presidente do Instituto Brasileiro de Direito do Seguro e integrante do coletivo Prerrogativas, também elogiou a fala de Mercadante. Ele participou do encontro acompanhado por representantes de 20 seguradoras e resseguradoras.

Segundo Tzirulnik, o setor passou a reconhecer avanços do governo após a aprovação de marcos regulatórios que, segundo ele, estavam em tramitação havia anos.

Lula não aprofunda tema fiscal

O ajuste fiscal também não teria sido discutido de maneira aprofundada por Lula durante uma conversa reservada com empresários de maior porte antes do jantar. Segundo fontes ouvidas pelo Estadão, a passagem pela chamada sala de segurança foi rápida e serviu principalmente para cumprimentos a empresários próximos ao presidente.

Outro ponto mencionado por diferentes participantes foi a ausência de propostas para o futuro. Segundo os relatos, os discursos se concentraram em realizações do governo, enquanto iniciativas novas e planos para os próximos anos tiveram pouco espaço.

O economista Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do Eurasia Group, teve uma avaliação diferente sobre a atuação da equipe de Lula. Para ele, houve sinais de tentativa de abordar a questão fiscal.

“Os discursos foram mais construtivos do que o presidente tem dito anteriormente”, afirmou Garman.

Ele citou as falas de Mercadante sobre controle de gastos, de Geraldo Alckmin sobre a necessidade de evitar que as despesas cresçam acima do PIB e de Dario Durigan, da Fazenda, sobre o mesmo tema.

Apesar disso, Garman afirmou que o encontro não criou expectativa de uma reforma fiscal profunda em um eventual novo mandato de Lula. Para ele, permanece um problema de credibilidade em relação à agenda fiscal.

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