Lula e Congresso deixam quase R$ 1 trilhão em novos custos para a conta de luz até 2050

Decisões adotadas durante o terceiro mandato do presidente Lula e pela atual legislatura do Congresso Nacional devem acrescentar R$ 985 bilhões à conta de luz dos brasileiros até 2050. O valor, próximo de R$ 1 trilhão, corresponde a custos já contratados que serão incorporados gradualmente às tarifas de energia elétrica nos próximos anos.

O levantamento foi elaborado pela Frente Nacional dos Consumidores de Energia e divulgado pela Folha de S.Paulo. O cálculo não considera despesas futuras decorrentes de reajustes tarifários, inflação ou acionamento das bandeiras tarifárias.

Custos extras se somam à alta da energia

Segundo o estudo, os novos encargos incluem despesas ligadas ao Tratado de Itaipu, prorrogação de incentivos e benefícios para projetos de energia renovável e contratação de fontes destinadas a suprir a demanda em períodos específicos do dia.

O montante equivale a cerca de seis vezes o orçamento anual do Bolsa Família e a cinco vezes os recursos destinados ao programa Minha Casa, Minha Vida.

A estimativa surge em um cenário de aumento contínuo das tarifas. Em janeiro de 2023, uma família de classe média em São Paulo que consumia aproximadamente 200 kWh por mês pagava R$ 185 pela energia. Em maio deste ano, o valor chegou a R$ 220, uma alta média de 18,4%, acima da inflação acumulada no período, de 16,7%.

Setor elétrico enfrenta críticas e desafios estruturais

Para o presidente da Frente Nacional dos Consumidores de Energia, Luiz Eduardo Barata, a ausência de um marco adequado para acompanhar as transformações do setor tem resultado em medidas desconectadas e aumento dos custos para os consumidores.

A avaliação é compartilhada por representantes da iniciativa privada. Lucien Belmonte, porta-voz do movimento União Pela Energia, que reúne mais de 70 segmentos industriais, afirma que o modelo atual amplia custos, reduz a competitividade das empresas e impacta diretamente o custo de vida da população.

Enquanto isso, o Ministério de Minas e Energia contestou as conclusões do levantamento, afirmando considerar inadequada e superficial a metodologia utilizada para atribuir os custos às políticas públicas implementadas no setor elétrico.

Leilão de capacidade concentra mais da metade dos custos

De acordo com o estudo, o principal fator para a elevação das despesas foi o chamado Leilão de Reserva de Capacidade na Forma de Potência (LRCap).

Segundo os cálculos da Frente, a forma como o Ministério de Minas e Energia conduziu o certame teria gerado um impacto de R$ 546 bilhões, mais da metade do total estimado para os novos encargos da conta de luz.

Esse tipo de leilão tem a função de garantir energia disponível para momentos de maior demanda ou de menor geração por fontes renováveis, como solar e eólica, que dependem das condições climáticas para produzir eletricidade.

Crescimento da energia solar amplia desafios do sistema

O levantamento destaca que o avanço acelerado da geração distribuída, especialmente por meio de painéis solares instalados em residências, aumentou a complexidade da operação do sistema elétrico nacional.

A capacidade instalada da geração distribuída passou de 26 GW em 2023 para 45 GW no ano passado. Como essa energia não é controlada diretamente pelo Operador Nacional do Sistema (ONS), o equilíbrio entre oferta e demanda exige cortes cada vez maiores na produção de usinas sob controle do operador.

Outro desafio ocorre no fim da tarde, quando a geração solar diminui justamente no momento em que cresce o consumo residencial. Para manter a estabilidade do sistema, é necessário contratar fontes capazes de entrar rapidamente em operação.

Atrasos e controvérsias marcaram o processo

O estudo aponta que os leilões de reserva de capacidade ficaram três anos sem serem realizados. Quando o cronograma foi divulgado, em outubro de 2025, o mercado enfrentava forte aumento da demanda por energia, impulsionado principalmente pela expansão dos data centers.

Além disso, houve questionamentos sobre os preços-teto inicialmente definidos pelo Ministério de Minas e Energia. Após críticas do setor, os valores foram revisados em poucos dias, com aumentos entre 80% e 100%.

A contratação acabou alcançando quase 19 GW de potência — volume equivalente a cerca de uma vez e meia a capacidade de Itaipu — e gerou disputas judiciais, divergências entre agentes do setor e questionamentos do Tribunal de Contas da União (TCU).

O debate sobre os custos do sistema elétrico e a necessidade de uma reforma estrutural do setor deve permanecer no centro das discussões nos próximos anos, diante dos impactos diretos sobre as tarifas pagas pelos consumidores.

Deixe um comentário

Rolar para cima