A sigla do Sindicato do Crime escrita na areia do Morro do Careca, principal cartão-postal de Natal, voltou a expor o avanço territorial da facção em comunidades da capital e do interior potiguar.
De acordo com apuração da Folha de S.Paulo e segundo autoridades do estado, o crescimento da organização criminosa vem sendo observado há anos, principalmente em áreas urbanas estratégicas e dentro do sistema prisional.
MP aponta estrutura semelhante à de grandes facções
Uma denúncia apresentada neste mês pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte contra 25 integrantes descreve uma estrutura voltada para controle territorial, lavagem de dinheiro, disciplina interna e articulação com facções de outros estados.
De acordo com a investigação, o grupo mantém uma hierarquia dividida entre comando e execução. No topo estaria a chamada “Final”, formada pelos fundadores da facção. A estrutura ainda inclui conselhos estratégicos, setores financeiros e responsáveis pela logística e transmissão de ordens.
Segundo o MP, a nomenclatura e parte da organização lembram modelos adotados pelo Primeiro Comando da Capital e pelo Comando Vermelho.
Vila de Ponta Negra aparece como base da facção
A denúncia é resultado da Operação Treme Tudo, deflagrada em dezembro do ano passado nos estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas e Rondônia.
Segundo a investigação, a Vila de Ponta Negra, comunidade próxima ao Morro do Careca, é apontada como uma das principais áreas de influência da facção na capital potiguar.
O inquérito começou após a prisão de Alligueiton Patrício de Araújo, conhecido como “Ponta” ou “Adidas”, apontado pelo Ministério Público como uma das lideranças do grupo.
A análise do celular e de arquivos armazenados em nuvem permitiu aos investigadores mapear parte da estrutura operacional da facção e identificar integrantes da cúpula criminosa.
Facção mantém conexões com grupos de outros estados
Segundo o processo, o Sindicato do Crime mantém ligações com organizações criminosas da Paraíba, Ceará, Pernambuco, Bahia, Amazonas e Rio de Janeiro.
A investigação também aponta conexões com facções como:
- Nova Okaida;
- Guardiões do Estado;
- Bonde do Maluco;
- Terceiro Comando Puro.
Investigação cita “tribunais do crime”
A denúncia afirma ainda que o grupo utilizava os chamados tribunais do crime para julgar integrantes suspeitos de descumprir regras internas ou colaborar com facções rivais.
Para a Folha de S.Paulo, o promotor Silvio Brito explica que o mecanismo funciona como forma de controle social e disciplinar nas áreas dominadas pela facção.
“Quem age por conta própria também pode ser submetido ao tribunal do crime”, afirmou o integrante do Ministério Público.
Operações recentes miraram núcleo ligado à facção
Nesta sexta-feira (22), a Polícia Civil do Rio Grande do Norte prendeu dez suspeitos apontados como integrantes de um núcleo de homicídios ligado ao Sindicato do Crime durante a segunda fase da Operação Lockout. As ações ocorreram em Natal, Mossoró e Baraúna.
A Secretaria de Segurança Pública do estado afirmou que intensificou operações de combate às facções criminosas nos últimos anos, com foco em monitoramento de lideranças, apreensão de armas, bloqueio financeiro e prisões interestaduais.
Denúncia também envolve advogados
O processo ainda descreve uma estrutura chamada “Sintonia dos Gravatas”, formada por advogados suspeitos de atuar como ponte entre integrantes presos e membros da facção fora do sistema penitenciário.
A advogada Sandra Cássia Moura Caetano foi denunciada sob suspeita de repassar mensagens e ordens da organização criminosa.
A defesa dela afirmou que a investigação apresenta apenas “inferências indiretas” e negou irregularidades.
Segundo a Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Rio Grande do Norte, atualmente existem 16 processos ético-disciplinares relacionados a suspeitas de ligação entre advogados e facções criminosas no estado.




