Dormir pouco — ou até dormir demais — pode estar relacionado ao envelhecimento biológico acelerado de diferentes órgãos do corpo humano. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Nature, que analisou dados de quase 500 mil participantes do banco britânico UK Biobank.
Segundo os pesquisadores, os melhores indicadores de saúde foram observados em pessoas que dormiam entre 6,4 e 7,8 horas por noite, com pequenas diferenças entre homens e mulheres. Já os extremos — menos de seis horas ou mais de oito — apresentaram associação com sinais mais intensos de desgaste biológico e maior risco de doenças.
O trabalho identificou impactos em órgãos e sistemas como cérebro, pulmão, fígado, pâncreas, pele, tecido adiposo e sistema imunológico. Os autores afirmam que os resultados indicam que o sono exerce influência sistêmica no organismo, e não apenas sobre a função cerebral.
Para chegar às conclusões, os cientistas utilizaram 23 “relógios biológicos” desenvolvidos com base em exames de ressonância magnética, análises de proteínas do plasma e estudos metabólicos. Esses marcadores são usados para estimar a idade biológica do corpo — uma medida que busca identificar o desgaste real do organismo independentemente da idade cronológica.
Dos 23 relógios avaliados, nove apresentaram relação significativa entre duração do sono e envelhecimento acelerado.
“O mais interessante é entender se conseguimos relacionar esses relógios biológicos a fatores de estilo de vida que possam ser modificados a tempo de retardar o envelhecimento”, afirmou Junhao Wen, líder do estudo e professor assistente de radiologia da Faculdade de Médicos e Cirurgiões Vagelos, da Universidade Columbia.
Sono curto foi associado a mais doenças
A pesquisa também encontrou associação entre padrões anormais de sono e 153 doenças sistêmicas. O sono curto, inferior a seis horas por noite, apresentou relação mais ampla com problemas de saúde.
Entre eles estão doenças cardiovasculares, como hipertensão, insuficiência cardíaca, doença arterial coronariana e arritmias. Também foram observadas associações com diabetes tipo 2, obesidade, alterações do colesterol, asma, bronquite e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).
Os pesquisadores ainda identificaram relação entre privação de sono e transtornos psiquiátricos e neurológicos, incluindo depressão, ansiedade, enxaqueca e transtornos por uso de substâncias.
Problemas gastrointestinais, como gastrite, refluxo, síndrome do intestino irritável e constipação, também apareceram entre as condições associadas ao sono insuficiente.
Sono prolongado teve relação maior com transtornos cerebrais
Já o sono prolongado, acima de oito horas por noite, mostrou associação mais concentrada em doenças neuropsiquiátricas e condições relacionadas ao cérebro.
Entre os distúrbios identificados estão depressão maior, esquizofrenia, transtorno bipolar, TDAH, dependência alcoólica e enxaqueca.
Segundo os autores, os resultados sugerem que dormir pouco e dormir demais podem afetar o organismo por mecanismos biológicos diferentes, apesar de levarem a consequências semelhantes em alguns casos.
O estudo também investigou a relação entre sono e depressão tardia. As análises indicam que o sono curto pode agravar diretamente o quadro, enquanto o sono prolongado pode influenciar a doença de maneira indireta, mediada pelo envelhecimento biológico de órgãos como cérebro, fígado e tecido adiposo.
Maior risco de mortalidade
Os pesquisadores observaram ainda associação entre padrões extremos de sono e aumento do risco de morte por qualquer causa.
Segundo os dados apresentados:
- pessoas que dormiam menos de seis horas tiveram aumento de 50% no risco de mortalidade;
- entre aquelas que dormiam mais de oito horas, o aumento foi de 40%.
Apesar dos resultados, os autores ressaltam que o estudo não estabelece relação direta de causa e efeito entre duração do sono e envelhecimento biológico.
Ainda assim, os pesquisadores defendem que a melhora da qualidade e da duração do sono pode representar uma estratégia importante para promover envelhecimento saudável, reduzir o risco de doenças e aumentar a longevidade.
Com informações do g1




