Vice-governador acusa governo de Fátima Bezerra de esconder crise fiscal

Walter Alves (MDB) recusou assumir o Governo do Rio Grande do Norte, decisão comunicada em janeiro, após concluir que herdaria uma severa crise fiscal que a gestão da governadora Fátima Bezerra (PT) minimizava. A “quebra de confiança” sobre a transparência das contas do Estado foi o motivo central que levou o vice-governador a declinar da posição, um movimento que reconfigura o cenário político e levanta sérias questões sobre a saúde financeira do Executivo potiguar, conforme revelado nesta sexta-feira, 08/05/2026.

Walter Alves, em entrevista à 96 FM, detalhou a saga que culminou em sua recusa. Apesar de nutrir o sonho de governar o Estado, ele condicionou a aceitação a um conhecimento profundo da situação financeira. O vice-governador enfatizou que não fazia parte do núcleo de gestão e, em suas curtas passagens interinas pelo Governo, não detinha poder de decisão.

“Quem é que não quer ser governador do Rio Grande do Norte? Eu sonhei com isso. Trabalhei, estudei, fui candidato a vice-governador com esse objetivo”, declarou. Ele insistiu: “Eu disse, topo. Agora eu preciso conhecer a situação do Estado.”

A partir de então, o Governo forneceu informações oficiais. Alves, com o apoio de assessores que colaboraram em gestões de Garibaldi Alves Filho, analisou os números. O diagnóstico foi alarmante: uma situação “muito delicada”. Ele foi alertado de que assumiria por poucos meses, mas sairia com um desgaste profundo, carregando os problemas acumulados da gestão petista, o que afetaria sua imagem e legado político.

O ponto de ruptura foi a dívida dos consignados. Em uma reunião com membros da administração estadual, Walter Alves questionou sobre o tema e recebeu a garantia de que seria um valor pequeno e em resolução. Contudo, informações de um parlamentar já indicavam um passivo superior a R$ 360 milhões.

“Minimizaram para mim. Eu vi que não estava existindo confiança. Quebrou a confiança”, afirmou Alves, pontuando que o episódio revelou a possibilidade de assumir o Governo sem plena ciência da crise. “Numa relação como essa, tem que ter confiança. Então, eu não vou arriscar a história do meu pai, a minha história, o meu passado.”

A dimensão da dívida foi, posteriormente, confirmada pelo próprio Governo. Em março, o então secretário estadual da Fazenda, Carlos Eduardo Xavier, revelou à Comissão de Finanças e Fiscalização da Assembleia Legislativa que o passivo com consignados somava R$ 363,3 milhões, referentes ao período de maio de 2023 a março de 2026. A gestão justificou os atrasos pela frustração de receitas em 2025, calculada em R$ 474,5 milhões, e pela priorização do pagamento da folha e obrigações constitucionais. Este é um dado crucial, mostrando o impacto direto na vida dos servidores públicos.

Walter Alves também reforçou sua decisão com base em indicadores fiscais do Tesouro Nacional, os quais, segundo ele, demonstram a grave situação do Rio Grande do Norte, um dos Estados com pior desempenho fiscal do país. “É a narrativa do Tesouro Nacional”, frisou, despolitizando a informação.

Dados de outubro de 2025 do Tesouro Nacional mostram que o Rio Grande do Norte comprometeu 55,73% da Receita Corrente Líquida ajustada com despesas de pessoal no segundo quadrimestre de 2025, superando o limite prudencial de 49% da Lei de Responsabilidade Fiscal para o Poder Executivo.

O vice-governador alertou que o Estado iniciou 2026 com um rombo de R$ 3 bilhões, com a possibilidade de acumular mais dívidas. Além disso, mencionou atrasos no pagamento de fornecedores, terceirizados e médicos, e a pressão de servidores por reajustes e nomeações. Essas pendências impactam diretamente a prestação de serviços essenciais e a dignidade dos trabalhadores.

Alves argumentou que assumir o Governo significaria ser cúmplice e responsabilizado por esses problemas. “Eu assumiria e teria que ser conivente, porque a partir daí eu tinha conhecimento e o cidadão ia dizer o seguinte: você assumiu porque quis”, resumiu. Ele concluiu de forma contundente: “Eu vi que a bomba estava caindo no meu colo. Eu peguei a bomba e disse: pega pra tua.”

A acusação de traição a um acordo político de 2022 para suceder Fátima Bezerra foi rechaçada por Walter. Ele afirmou que a possibilidade de assumir o Governo era uma consequência natural da chapa, mas sem garantia formal de candidatura à sucessão. Além disso, o MDB, seu partido, teria sido esvaziado na administração desde o início, mantendo apenas a Secretaria de Recursos Hídricos.

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