Pressionado por derrotas e queda nas pesquisas, Lula adota discurso antissistema rumo a 2026

Diante de uma sequência de derrotas no Congresso e da estagnação nas pesquisas eleitorais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu apostar em um discurso de enfrentamento ao “sistema” como estratégia para tentar recuperar apoio popular e fortalecer o caminho para a reeleição em 2026.

O movimento já vinha sendo ensaiado por aliados do PT, como Edinho Silva e Gleisi Hoffmann, mas ganhou força na última quinta-feira, quando Lula utilizou pela primeira vez de forma explícita o termo “antissistema” em um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e televisão.

Lula critica elite e diz que ‘o sistema joga contra’

Sem citar diretamente as derrotas recentes no Congresso — como a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal e a derrubada de veto presidencial relacionada ao ex-presidente Jair Bolsonaro —, Lula afirmou que enfrenta resistência de setores privilegiados da sociedade.

Cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de cima, os bilionários, a elite que só pensa em manter privilégios às custas do povo”, declarou o presidente.

PT tenta recuperar bandeira histórica da esquerda

A estratégia busca retomar um discurso tradicional da esquerda ligado à defesa dos trabalhadores e ao combate às elites econômicas. Durante congresso recente do PT, Edinho Silva afirmou que o partido precisava reassumir a pauta antissistema, que, segundo ele, acabou apropriada pela direita nos últimos anos.

A deputada Gleisi Hoffmann também reforçou essa linha ao afirmar, em janeiro, que “ser antissistema é governar para o povo”.

Fim da escala 6×1 virou principal bandeira

Entre as pautas usadas pelo governo para reforçar o discurso popular está a proposta de acabar com a escala de trabalho 6×1. Integrantes do PT avaliam que a medida possui forte apelo junto à população trabalhadora e pode simbolizar o embate entre governo e setores econômicos.

Além disso, o governo tenta capitalizar medidas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil e programas de renegociação de dívidas.

Derrotas no Congresso ampliam tensão com Parlamento

O cenário político, porém, segue desfavorável ao Planalto. A relação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, piorou após as derrotas recentes do governo, enquanto aliados de Lula apostam no presidente da Câmara, Hugo Motta, para tentar avançar com pautas prioritárias.

Nos bastidores, governistas passaram a resgatar expressões como “Congresso inimigo do povo” para pressionar parlamentares em temas trabalhistas.

Pesquisas aumentam preocupação no Planalto

A mudança de discurso também ocorre em meio à queda de popularidade do governo. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em abril mostrou que 52% desaprovam o terceiro mandato de Lula, enquanto 43% aprovam a gestão.

O levantamento também apontou Lula numericamente atrás de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno.

PT também mira Banco Central e autonomia da instituição

O discurso antissistema ainda passou a incluir críticas à autonomia do Banco Central do Brasil. O deputado Pedro Uczai apresentou projeto para recolocar o BC sob controle do Ministério da Fazenda.

Segundo ele, questionar a independência da autoridade monetária representa enfrentar estruturas consideradas fora do controle democrático.

Especialistas veem disputa de narrativa com a direita

Pesquisadores avaliam que Lula tenta disputar um espaço atualmente ocupado por lideranças conservadoras e bolsonaristas, que exploram há anos o discurso antissistema.

Nomes como Romeu Zema e aliados do bolsonarismo também adotam tom de enfrentamento às instituições, especialmente ao STF.

Para especialistas, o desafio do PT será recuperar essa narrativa sem perder a identidade histórica ligada aos movimentos sindicais e à defesa dos trabalhadores.

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