Mendonça vê ‘comunhão para ilícitos’ no elo entre imóveis, Costa e Vorcaro

A determinação de prender o ex-presidente do Banco Regional de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, nesta quinta-feira (16), teve como uma das motivações cruciais a exposição de seu alinhamento pessoal com o banqueiro Daniel Vorcaro demonstrado em mensagens que ligaram os negócios fraudulentos junto o Banco Master com ajustes de uma quantia que precisaria corresponder a uma quantidade de imóveis luxuosos apontados como propina pela Polícia Federal. É o que consta na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que enxergou uma “comunhão de desígnios para a prática de ilícitos”, na maior fraude financeira da história do Brasil.

“Ao mesmo tempo em que o investigado ex-Presidente do BRB anuncia medidas em relação a negócios envolvendo o banco que seriam de interesse de DANIEL VORCARO, prossegue demonstrando ânimo de que sua esposa possa visitar o apartamento luxuoso que, do que apurado pela Polícia Federal, seria uma das contraprestações pelos serviços ilícitos realizados”, foi a conclusão de Mendonça, sobre os diálogos de aplicativo WhatsApp extraídos do celular de Vorcaro.

O ministro que relata o caso no Supremo tratou como fortes indícios de crimes nas informações encaminhadas pela Polícia Federal que indicam que o ex-CEO do BRB teria sido favorecido com propina via transferência de seis imóveis de luxo, avaliados em cerca de R$ 146 milhões, em suposto ato de corrupção por parte de Vorcaro, também preso na Operação Compliance Zero.

Diálogos entre Paulo Henrique Costa e Daniel Vorcaro formam fortes indícios de corrupção envolvendo BRB e Banco Master (Fotos: Arquivo/Agência Brasília e Esfera Brasil)

Negócios bilionários

Costa é acusado de atuar para viabilizar a aquisição de cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras falsas do Banco Master. E a decisão de Mendonça cita que dois imóveis em Brasília e quatro apartamentos em São Paulo fariam parte da propina para Paulo Henrique Costa favorecer a tentativa de compra do BRB pelo Banco Master, na negociação frustrada pelo Banco Central em setembro de 2025. Cada apartamento de luxo em São Paulo tem avaliação média de cerca de R$ 30 milhões.

As mensagens na decisão envolvem outro preso hoje, Daniel Lopes Monteiro, advogado de Vorcaro e apontado como operador da propina que favoreceria o ex-presidente do BRB.

A defesa de Paulo Henrique Costa chegou a apontar que o ex-presidente do BRB não cometeu crime algum e considerou a prisão “absolutamente desnecessária”. Mas Mendonça concluiu que as condutas se amoldam, ao menos em cognição sumária, ao crime de corrupção passiva, além de revelarem possível participação em lavagem de dinheiro, organização criminosa e ilícitos contra o Sistema Financeiro Nacional.

Leia os diálogos:

Paulo Henrique Costa para Daniel Vorcaro: “Amigo,

Obrigado pela conversa de hoje. A cada passo o caminho está mais claro e estou mais empolgado com o que vamos
construir. Além disso, dou muito valor ao alinhamento pessoal. E acho que estamos bem alinhados em relação ao trabalho, visão de mundo e perfil.

Estou trabalhando para lançar a operação amanhã ou, no mais tardar, na segunda-feira. O Governador [Ibaneis Rocha] me pediu que preparasse um material para a argumentação dele, porque vamos receber críticas.

Acredito que aquele desenho de CEO da holding financeira e/ou da empresa financeira consolidadora com participação no conselho do BRB e da empresa de private equity vai ser o mais funcional e que gera sinergia entre todas as empresas.

Se o Daniel [Monteiro] puder fazer e enviar o contrato, seria ótimo. Conversei com a minha esposa e estaremos em SP na próxima semana. Seria legal mostrar o apartamento para ela. Assim, ela também vai se ambientando. Dia 01/03 está logo aí.

Acabei de pousar em Salvador e estou trabalhando na Renogrid.

Um forte abraço.”

Vorcaro responde: “Fala amigo, ótimo, também estou empolgado. Vou alinhar tudo com Daniel. Vou te passar uma pessoa que te mostrará o apto”.

Paulo Henrique: “Fechado! Obrigado”.

(Ao levar esposa aos apartamentos) Paulo Henrique para Vorcaro:  “Estive no outro hoje de manhã. A esposa ainda está meio cismada. Seria ótimo olhar outro para construir uma referência”.

Vorcaro: “Porquê?”

Paulo Henrique“Hoje estava com a região toda fechada. Seria bom dar o parâmetro”.

Vorcaro: “Ah tá. Esse outro é uma cobertura. Já pensando trazer família.”

Paulo Henrique“Eu venho na frente mesmo e elas vêm depois. Boa.”

Vorcaro“Vale a pena ver”

Paulo Henrique: “Claro. Qual o empreendimento?”

Vorcaro“Outra coisa, quando tiver um tempinho aí final de semana, veja se conseguimos falar. Esta semana estou com um gargalo de 300mm na quarta, queria bolar contigo o que acha que poderíamos conseguir fazer”.

Paulo Henrique“Meu foco é nisso nessa semana. Já monto uma estrutura na segunda com a equipe. O que ainda
temos de carteira varejo? E aí equilibro com PJ”.

Vorcaro“Vou levantar aqui com minha turma. E te volto.”

(Ao ajustarem valor milionário em imóveis para suposta propina) Paulo Henrique para Vorcaro: “Fiz as contas para chegar no valor que combinamos. Dependendo dos valores finais, sairia o Casa Lafer, que está no contrapiso. Apagando algumas mensagens”.

Vorcaro: “Vc diz casa Leopoldo, né? Cobertura que vc foi. Pq o heritage melhor que o Lafer, não?”

Paulo Henrique“Esse era enorme. A Cris nos levou no Casa Lafer, um apartamento tipo. Sim. Bem melhor.”

Vorcaro: “E vamos ter os delas novos de agora.”

(Cobrança posterior do ex-presidente do BRB) Paulo Henrique para Vorcaro: “Amigo, pessoal esperando seu de acordo sobre os imóveis de São Paulo. Pode ajudar?”

Vorcaro“Do meu lado dei carta branca. Onde está travado. Pode me falar?”.

Paulo Henrique: “Na equipe do Daniel [Monteiro]. Mas disseram que é simples.”

(Ex-presidente indica cumprir sua parte ao cobrar Vorcaro) Paulo Henrique: “Desculpe dar trabalho. É que estou focado na agenda que combinamos e fico em cima de todos os assuntos até resolver”.

Vorcaro: “Nada. Isso não é trabalho. Eu sou resolvedor de problemas rsrs”.

Paulo Henrique:“Estou tratando de carteira de outro lado”.

Deu no Diário do Poder

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