A direção nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) enfrenta divergências internas após a eleição presidencial e começou a discutir os rumos da legenda para o período posterior à saída de Luiz Inácio Lula da Silva da vida política eleitoral.
As insatisfações se intensificaram após críticas à condução da campanha. Na última semana, integrantes do partido se mobilizaram para convocar uma reunião presencial do Diretório Nacional, principal instância da legenda. A intenção é avaliar o desempenho eleitoral e preparar um congresso partidário em 2027, com debates sobre renovação e mudanças na organização interna. As informações são daFolha de S.Paulo.
Na quinta-feira (29), um grupo de petistas deixou de participar de uma reunião da Executiva Nacional por considerar que aquele não era o espaço adequado para discutir os problemas da campanha. Diante da pressão, o presidente do partido, Edinho Silva, convocou o Diretório Nacional para 13 de novembro.
A expectativa entre os integrantes da legenda é que Edinho seja cobrado pela condução da campanha, da qual foi coordenador. Dirigentes reclamam da concentração das decisões na direção nacional, enquanto lideranças estaduais reivindicam mais autonomia para definir a distribuição dos recursos partidários.
O próprio Lula criticou a organização da campanha em uma conversa com militantes, divulgada acidentalmente em um canal do partido. “Eu acho que nós fizemos uma campanha aquém da minha possibilidade. Acho que a gente poderia ter feito mais. Eu disse para o Edinho que essa foi a campanha menos organizada que eu participei desde 1989. E normalmente a gente colhe aquilo que a gente planta”, afirmou.
Edinho também gerou insatisfação entre aliados ao anunciar sua candidatura à Câmara dos Deputados. Segundo relatos, o presidente do PT teria usado a visibilidade conquistada à frente da legenda para atrair votos, em prejuízo de outros candidatos de São Paulo.
Candidatos também reclamaram de problemas na organização financeira da campanha. Alguns afirmaram que precisaram rever os gastos depois que a direção partidária alterou os valores inicialmente repassados durante o período eleitoral.
Parlamentares eleitos defendem maior participação na gestão dos recursos do PT. A proposta, no entanto, enfrenta resistência de dirigentes estaduais e de integrantes que defendem a renovação da estrutura partidária.
A disputa sobre a distribuição do dinheiro também envolve a escolha de candidaturas. Lideranças regionais argumentam que conhecem melhor as condições políticas de seus estados e, por isso, teriam mais capacidade para identificar candidatos com potencial eleitoral e definir onde os recursos devem ser aplicados.
Um dos exemplos citados é a campanha de Cadu de Lula ao governo do Rio Grande do Norte. Ele foi eleito, mas recebeu apenas R$ 1,5 milhão do Diretório Nacional do PT para disputar os dois turnos. Diversos candidatos a deputado federal receberam valores superiores aos destinados ao candidato potiguar.
Sucessão de Lula
Ainda segundo a reportagem, apesar das discussões sobre mudanças na estrutura do partido, integrantes da legenda avaliam que Lula continuará conduzindo o processo de escolha de seu sucessor. A vitória eleitoral recente ampliou sua força interna e reduziu, ao menos por enquanto, o risco de disputas entre grupos petistas em torno da candidatura presidencial de 2030.
Entre os nomes mencionados por aliados estão o senador Camilo Santana (PT-CE), o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT-PI), e o ex-ministro Fernando Haddad (PT-SP). Pessoas próximas ao presidente, porém, avaliam que a discussão não deve ser antecipada. A indicação imediata de um sucessor poderia transferir parte da influência política para outro nome antes do fim do atual mandato.
Camilo Santana e Rafael Fonteles construíram suas carreiras políticas no Nordeste. Uma eventual escolha de um dos dois também ampliaria a influência da região dentro do PT. Lula nasceu em Pernambuco, mas iniciou sua trajetória política em São Paulo.
O presidente foi candidato do partido em sete das dez eleições presidenciais disputadas pela legenda e participou das articulações nas outras três. Ao fim do próximo mandato, que começa em 5 de janeiro, terá 85 anos e não deverá disputar novas eleições.
Embora alguns nomes apareçam como possíveis favoritos, aliados ressaltam que o cenário pode mudar até a definição da candidatura. Petistas lembram que, em 2010, os ex-ministros José Dirceu e Antonio Paloccieram apontados como possíveis sucessores de Lula. Após serem atingidos por escândalos, acabaram fora da disputa, e o presidente lançou Dilma Rousseff como candidata.
Disputa por espaço regional e renovação
De acordo com a Folha, dirigentes petistas do Nordeste reclamam há anos da influência de políticos paulistas nas decisões nacionais do partido. Estados como Bahia, Ceará e Piauí estão entre os principais redutos eleitorais da legenda, mas o número de filiados em São Paulo favorece os representantes paulistas nas votações internas.
Em conversas com integrantes do partido, Edinho Silva tem defendido mudanças na organização interna, renovação dos quadros e reformulação da comunicação da legenda.
Uma diretriz política aprovada pela Executiva Nacional na quinta-feira (29) também aborda esses pontos. O documento defende a ampliação da participação de jovens e a criação de novas formas de mobilização.
“O PT precisa abrir suas portas, renovar suas formas de participação e construir, com os jovens, novos caminhos de organização política. Orientamos a realização de uma ampla campanha de filiação de jovens ao Partido dos Trabalhadores”, afirma o texto.
A resolução também propõe mudanças na comunicação e na presença territorial do partido. “O partido deve incorporar novas formas de organização e mobilização, renovar sua comunicação e ampliar sua presença nos territórios, transformando o apoio eleitoral em força social organizada”, diz o documento.



