A confirmação, pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, de que o Túnel Major Sales ainda está em fase de testes expõe uma das encenações políticas mais constrangedoras já promovidas no Rio Grande do Norte. Inaugurado por Lula com pompa, aplausos e água jogada para o alto por autoridades locais, o túnel jamais esteve pronto. O que existia ali eram estruturas provisórias, contêineres, apresentados à população como se fossem parte da solução definitiva para a seca crônica do sertão nordestino.
O problema não é que soluções temporárias tenham sido usadas durante testes de uma obra complexa. Isso é normal em qualquer empreendimento de engenharia. O problema é a omissão deliberada. Em nenhum momento o governo federal ou os políticos que participaram do evento, a governadora Fátima Bezerra e o então secretário da Fazenda Cadu Xavier entre eles, informaram à população que aquilo era um teste, e não a entrega da obra. Ao contrário, promoveram uma celebração completa, com toda a linguagem de uma inauguração real: água chegando, problema resolvido, promessa cumprida.
Essa escolha de comunicação não foi ingenuidade. Foi estratégia. A poucos meses de eleições, entregar “boas notícias” para o Nordeste tem valor político incalculável, mesmo que a notícia seja fabricada. E o pior: as próprias barreiras que impediam o fluxo de água foram recolocadas dias depois, provando que aquele “sucesso” running havia sido armado para durar apenas o tempo da fotografia.
Populações historicamente sofridas pela seca, que dependem de anúncios como esse para acreditar em alguma melhora concreta em suas vidas, foram tratadas como coadjuvantes de um espetáculo eleitoral. A dor real de quem enfrenta falta de água foi instrumentalizada para produzir uma imagem de eficiência que, na prática, ainda não existe.
Passar por cima da verdade técnica para produzir um evento político não é apenas antiético: é um desrespeito à inteligência do cidadão nordestino, que sabe reconhecer quando está sendo usado como cenário.
Blog do Gustavo Negreiros



