Pesquisadores desvendam segredo da Caatinga para resistir à seca

Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) revelaram, nesta quarta-feira, 13 de maio de 2026, que os ecossistemas aquáticos subterrâneos da Caatinga atuam como vitais reservatórios de biodiversidade. A descoberta, publicada na renomada revista científica Hydrobiologia, destaca como organismos microscópicos sobrevivem a condições extremas de seca, garantindo a regeneração da vida no semiárido e reforçando a resiliência do bioma frente às mudanças climáticas.

A Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, é caracterizada por um regime irregular de chuvas, onde a escassez de água se contrapõe a uma biodiversidade altamente adaptada. É neste contexto desafiador que a pesquisa investigou as estratégias de sobrevivência de organismos microscópicos durante períodos prolongados de estiagem.

O estudo analisou o zooplâncton — um conjunto de animais microscópicos essenciais para a cadeia alimentar aquática — e suas táticas de resistência. Em cenários adversos, como secas severas, esses organismos entram em um estado de dormência, produzindo estruturas resistentes que permanecem nos sedimentos por longos períodos. Essa característica funciona como uma verdadeira “memória biológica”, pronta para ser ativada.

Um mergulho nos ambientes subterrâneos do RN

Para desvendar esse mecanismo, os cientistas coletaram amostras em dez ecossistemas subterrâneos no Rio Grande do Norte, incluindo lagos freáticos, rios subterrâneos e nascentes em cavernas. O estado, aliás, ocupa a quarta posição no Brasil em número de cavernas, com mais de 1.400 registros.

Em laboratório, foram simuladas diversas condições ambientais para estimular a eclosão dos organismos dormentes. As amostras foram submetidas a variações de luz e umidade, permitindo aos pesquisadores observar quais fatores influenciam o “despertar” desses seres microscópicos.

Ao longo de aproximadamente 200 dias de experimento, os resultados surpreenderam: foram registradas 7.726 eclosões, distribuídas em 25 grupos distintos. Os primeiros a emergirem foram os rotíferos, seguidos pelas tecamebas.

Os achados revelaram que a luz é o principal gatilho para a quebra da dormência, promovendo maior diversidade e abundância de organismos. Além disso, a pesquisa identificou a presença de 11 grupos que não haviam sido encontrados em análises recentes da comunidade ativa, indicando que estavam preservados de forma invisível nos sedimentos.

Reservatórios de vida e resiliência climática

Segundo a coordenadora da pesquisa, a professora Juliana Deo Dias, os resultados sublinham a importância desses ambientes como “bancos naturais” de biodiversidade. Mesmo quando a vida visível na água se ausenta, o sedimento mantém um estoque de espécies capazes de repovoar o ecossistema assim que as condições se tornam favoráveis.

O estudo também ressalta o papel fundamental desses reservatórios diante do cenário de mudanças climáticas. Ao assegurar a regeneração dos organismos após períodos de seca, os ecossistemas subterrâneos aumentam a resiliência da Caatinga frente a eventos climáticos extremos e frequentes.

A pesquisa foi desenvolvida em parceria com a Universidade Estadual de Maringá, a Universidade Federal de Ouro Preto e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, por meio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (Cecav). A iniciativa integra um projeto maior focado na compreensão da biodiversidade em ambientes subterrâneos do semiárido brasileiro.

Com informações do Portal da UFRN.

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