A Justiça da Itália enquadrou, pela primeira vez, integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) com base na legislação antimáfia italiana. Os brasileiros Demétrio Batista de Oliveira, de 55 anos, e Nicholas Charles Evangelista Lopes, de 33, passaram a responder por tráfico internacional de drogas e organização criminosa na chamada Operação Samba, conduzida pela Procuradoria Distrital Antimáfia de Turim.
Ao mesmo tempo, a Polícia Federal deflagrou no Brasil a Operação Conexão Paraíba, considerada a frente brasileira da investigação internacional. As duas ações ocorreram simultaneamente em dezembro de 2024.
Atualmente, Demétrio está preso no Brasil. Já Nicholas segue foragido.
Investigação aponta avanço global do PCC
De acordo com uma reportagem publicada pelo Estadão, as autoridades italianas afirmam que a presença de integrantes do PCC em articulações com grupos mafiosos internacionais consolidou a facção brasileira como um dos principais atores do tráfico internacional de cocaína.
Além disso, a investigação mostra que o PCC ampliou alianças com organizações criminosas da Europa e passou a operar rotas internacionais de envio de drogas para diversos continentes.
As defesas dos acusados negam participação nos crimes. Ainda assim, os advogados apresentaram habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça para tentar anular provas ou garantir liberdade aos investigados. No entanto, a Corte rejeitou todos os pedidos analisados até agora.
Promotor diz que PCC virou multinacional do tráfico
Segundo o promotor Lincoln Gakiya, em entrevista ao Estadão, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, o PCC se transformou em uma verdadeira “multinacional” do tráfico.
De acordo com ele, a facção deixou de atuar apenas no território brasileiro e passou a priorizar operações ligadas ao envio de cocaína para a Europa.
Além disso, as investigações apontam que o grupo reduziu ações violentas ostensivas e passou a focar em logística, lavagem de dinheiro e expansão internacional.
Operação investiga ligação entre PCC e máfia italiana
As apurações identificaram conexões entre o PCC e a ‘Ndrangheta, considerada uma das organizações mafiosas mais poderosas da Europa.
Na Itália, a juíza Francesca Roseti autorizou medidas cautelares contra integrantes do esquema. Enquanto isso, no Brasil, a condução do caso ficou sob responsabilidade da juíza Cristiane Mendonça Lage, da 16ª Vara Criminal Federal de João Pessoa.
Ao todo, a Justiça italiana denunciou 22 pessoas por associação ao tráfico internacional. Além disso, parte dos investigados foi enquadrada no artigo 416 bis, dispositivo reservado a organizações mafiosas.
Brasileiros são acusados de abastecer rota da cocaína
Segundo a investigação, Demétrio e Nicholas integravam a rede responsável pelo fornecimento de toneladas de cocaína e pela logística de envio da droga para países europeus.
Além disso, os investigadores apontam que o grupo utilizava portos do Brasil, Equador, Uruguai, Colômbia e Panamá para enviar cocaína à Itália, Espanha, Holanda, Bélgica e Austrália.
Força-tarefa internacional atuou por anos
Para investigar o esquema, autoridades brasileiras e italianas criaram uma força-tarefa internacional que atuou até março de 2025.
A equipe reuniu integrantes da Procuradoria Antimáfia de Turim, da Polícia Federal brasileira e da Drug Enforcement Administration, agência antidrogas dos Estados Unidos.
Durante a apuração, os investigadores realizaram mais de 100 interceptações telefônicas e monitoraram reuniões, viagens e movimentações financeiras ligadas ao grupo criminoso.
Empresas investigadas movimentaram R$ 4,8 bilhões
Segundo análise do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, empresas ligadas ao esquema investigado movimentaram cerca de R$ 4,8 bilhões entre 2018 e 2024.
Além disso, as autoridades apontam que sete empresas eram usadas para ocultar movimentações financeiras atribuídas ao grupo criminoso.
Delator revelou relação entre mafiosos e PCC
As investigações ganharam força após a colaboração do mafioso italiano Vincenzo Pasquino, que firmou acordo de delação premiada com autoridades italianas. Segundo os investigadores, ele detalhou a parceria entre a ‘Ndrangheta e o PCC para controlar rotas transatlânticas do tráfico de cocaína.
Além disso, Pasquino citou integrantes históricos da facção brasileira, como Gilberto Aparecido dos Santos e Sérgio de Arruda Quintiliano, apontados como operadores internacionais do PCC.
Os dois estão presos e negam envolvimento com o tráfico e com as organizações criminosas investigadas no Brasil e na Itália.




