Desemprego sobe e escancara fragilidade crônica do mercado de trabalho no Brasil

A alta da taxa de desemprego para 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro, divulgada pelo IBGE, vem sendo tratada como um movimento “sazonal”. A explicação é correta do ponto de vista técnico. Mas, na prática, virou um álibi confortável para um problema estrutural que o país insiste em empurrar para debaixo do tapete.

Os números ajudam a dimensionar o quadro. São 6,2 milhões de brasileiros sem trabalho, cerca de 600 mil a mais do que no trimestre anterior. A população ocupada caiu para 102,1 milhões, uma retração de 874 mil pessoas em apenas três meses. Ao mesmo tempo, houve um corte expressivo de 696 mil vagas em administração pública, educação, saúde e serviços sociais, além de 245 mil postos a menos na construção civil.

Todo início de ano repete o mesmo roteiro. Contratos acabam, vagas desaparecem, e o discurso oficial recorre à sazonalidade como se isso resolvesse alguma coisa. Não resolve. Apenas normaliza um mercado de trabalho frágil, instável e incapaz de sustentar crescimento com consistência.

Os números são claros. Saúde, educação e construção puxaram a queda. Setores essenciais, intensivos em mão de obra e que deveriam oferecer estabilidade mínima. Em vez disso, operam como engrenagens descartáveis, onde trabalhadores entram e saem conforme o calendário e a conveniência fiscal.

O argumento de que a taxa ainda é a menor da série histórica para o período também merece cautela. É verdade estatística, mas não é sinônimo de solidez econômica. O Brasil pode até ter menos desempregados proporcionalmente, mas segue oferecendo empregos de baixa qualidade, com pouca proteção e alta volatilidade.

Há um avanço numérico, mas não estrutural.

O rendimento médio recorde de R$ 3.679, com alta de 2% no trimestre e 5,2% em relação ao ano anterior, reforça essa distorção. À primeira vista, parece uma boa notícia. Mas, em muitos casos, ele sobe porque os trabalhadores mais vulneráveis são expulsos do mercado, elevando artificialmente a média dos que permanecem. É um efeito matemático, não necessariamente um ganho real para a base da população.

Na prática, a conta não fecha para quem está fora.

Em conversas com economistas nos últimos dias, a avaliação é convergente: o Brasil melhorou os indicadores agregados, mas não resolveu o problema estrutural do emprego. Há crescimento, mas com baixa qualidade e pouca previsibilidade. A formalização avança em ritmo irregular, enquanto a informalidade segue sendo uma válvula de escape permanente.

A queda na ocupação em áreas como saúde e educação expõe um problema ainda mais grave. O Estado, que deveria ser um fator de estabilidade, atua como agente de volatilidade. A dependência de contratos temporários transforma serviços essenciais em ciclos de contratação e demissão, sem continuidade e sem planejamento.

Na construção civil, o recuo é outro sinal de alerta. Trata-se de um dos setores mais sensíveis à renda e à confiança. Quando a construção para, é porque a economia real está perdendo fôlego. E isso costuma vir antes de problemas maiores.

O quadro geral é de um mercado que até reage, mas não sustenta. Cresce, mas não consolida. Gera vagas, mas não cria segurança. E, no limite, isso compromete qualquer narrativa mais otimista sobre a economia.

O Brasil não enfrenta apenas um problema de desemprego. Enfrenta um problema de qualidade do emprego, de previsibilidade e de estrutura produtiva.

A sazonalidade explica o movimento. Mas não justifica a repetição.

O que falta não é diagnóstico. É capacidade de romper com um modelo que já mostrou, inúmeras vezes, que não entrega estabilidade nem perspectiva.

O país segue girando em ciclos curtos de melhora e piora, enquanto o trabalhador continua sendo o elo mais frágil dessa equação.

E isso já não pode mais ser tratado como normal.

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