RN tem 2ª maior queda do NE em índice que mede aprendizado em Matemática

O Rio Grande do Norte registrou a segunda maior queda no Índice de Inclusão Educacional (IIE) na aprendizagem em Matemática entre os estados da região Nordeste no período pós-pandemia. Em 2023, 16,5% dos jovens concluíram o ensino médio até os 18 anos com aprendizado acima do básico na disciplina, representando uma queda de 4,6 pontos percentuais em relação a 2019, quando a proporção foi de 21,1%. A redução também está acima da média nacional, que foi de 4,1 pontos percentuais, saindo de 25,5% para 21,4%.

Os dados foram levantados a pedido do Instituto Natura pela organização Metas Sociais, responsável por desenvolver o IIE, e divulgados no fim do ano passado. O índice utiliza dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), do Censo Escolar e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua para retratar a proporção de indivíduos que concluem a educação básica até a idade esperada e com desempenho adequado.

De acordo com o levantamento, a queda no Rio Grande do Norte somente é menor que a registrada na Paraíba (-5,50) entre os estados do Nordeste. Na sequência, aparecem Sergipe (-3,9) e Alagoas (- 3,8). O estado potiguar, apesar de ter registrado a maior queda, aparece com o quarto maior índice em 2023 na região Nordeste.

Em todo o país, apenas a Bahia registrou aumento no percentual de jovens que concluíram o ensino médio com conhecimentos adequados em Matemática, correspondente a 0,70 ponto percentual entre 2019 e 2023. Já Roraima manteve o indicador em 13,1% durante o período.

O diretor-presidente do Instituto Natura e co-criador do IIE, David Saad, esclarece que a queda no índice do Rio Grande do Norte e de todo o país foi influenciada pela pandemia. Isso porque durante esse período os estudantes tiveram uma defasagem no aprendizado. “É muito provável que com o tempo isso de alguma forma se acerte, porque essa geração que sofreu com a pandemia vai ter saído do sistema e teremos novas gerações”, observa.

A professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Etienne Lautenschlager, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Educação Matemática (SBEM), reconhece que a pandemia agravou o cenário da aprendizagem no Estado. Ela destaca, no entanto, que a queda no IIE local deve ser interpretada como resultado de um processo acumulativo de fragilidades na aprendizagem matemática ao longo da Educação Básica.

Ela cita que os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), disponíveis na plataforma QEdu, ajudam a compreender essa dinâmica. No 9º ano da rede pública do RN, por exemplo, apenas 10% dos estudantes apresentavam aprendizagem adequada em Matemática em 2019. Em 2021, esse percentual caiu para 8% e, em 2023, chegou a 9%. “O ensino médio herda fragilidades que se formam nos anos iniciais e se aprofundam ao longo da trajetória escolar”, esclarece a docente.

Já o professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), Márcio Azevedo, que realiza pesquisas na área de indicadores educacionais, chama atenção para outro problema: a necessidade de rever a metodologia de alguns índices educacionais. Entre eles, está o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), calculado a partir dos dados sobre aprovação escolar obtidos no Censo Escolar e das médias de desempenho no Saeb.

Na avaliação de Márcio Azevedo, o indicador tem uma métrica linear que precisa ser revista para considerar outros aspectos ligados à aprendizagem dos estudantes. “Nós temos que avaliar as condições socioeconômicas, ou seja, saber de onde estas crianças e esses jovens estão inseridos, política e culturalmente. Além disso, precisamos avaliar as condições de infraestrutura física das escolas e as condições de trabalho dos profissionais”, argumenta.

Outro problema, na avaliação do docente, está na formação do currículo das disciplinas da educação básica de forma seriada, incluindo a de Matemática. Isso porque o modelo não consegue promover ou recompor a aprendizagem dos estudantes. “Se olharmos a organização do Enem, por exemplo, é um processo contextualizado e as questões são elaboradas numa perspectiva interdisciplinar. O currículo das escolas, [por outro lado], ainda não conseguiu se reorganizar para que a aprendizagem da matemática seja baseada numa educação contextualizada”, explica.

Soluções

Para Márcio Azevedo, a melhora na aprendizagem de matemática e nos demais índices da educação no RN passa pela colaboração entre municípios, Estado e o Governo Federal. “Há muito tempo um Sistema Nacional de Educação é defendido, mas, na prática, ainda não fomos capazes de estabelecer um trabalho interfederativo. Outro aspecto importante é que a rede sozinha não dá mais conta de promover esta aprendizagem de forma significativa. Então, as redes municipais, além da rede estadual, precisam continuar insistindo numa perspectiva de parcerias”, argumenta.

A afirmação vai ao encontro da proposta do IIE que, de acordo com David Saad, tem a proposta de avaliar a educação de forma integrada. “Não adianta termos uma alfabetização boa e o ensino médio ruim, ou o ensino fundamental 2 bom, mas uma alfabetização ruim. Para realmente termos uma educação de qualidade, precisamos ter qualidade no ciclo inteiro da educação básica”, explica.

A professora Etienne Lautenschlager promove ações no Estado desde 2019, com foco na melhoria da aprendizagem em Matemática a partir de um projeto que articula Neurociência Cognitiva e Educação Matemática. No fim de janeiro deste ano, ela enviou uma carta para a Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia, Desenvolvimento Socioeconômico, Meio Ambiente e Turismo da Assembleia Legislativa (ALRN) para pedir uma oportunidade de apresentar a iniciativa. Até o momento, no entanto, não recebeu retorno.

Para a docente, a melhora nos índices de aprendizagem no Estado exige a reorientação da formação dos professores, o uso sistemático de dados diagnósticos, transformando avaliações em instrumentos efetivos de intervenção pedagógica, além de políticas educacionais de longo prazo com continuidade.

Em resposta à TRIBUNA DO NORTE, a Secretaria Municipal de Natal afirma que investiu na aquisição de laboratórios de Matemática e Robótica para facilitar o letramento matemático. Para este ano, a pasta destaca que aderiu aos programas federais Compromisso Nacional Toda Matemática e Na Ponta do Lápis, a fim de assegurar que os estudantes desenvolvam as competências e habilidades estabelecidas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

A reportagem também procurou a Secretaria de Educação do Estado (Seec/RN), mas não obteve retorno até o fechamento desta edição.

Deu na Tribuna do Norte

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