A Prefeitura do Natal apresentou, nesta quarta-feira (7), as ações desenvolvidas e os projetos em andamento para fortalecer o monitoramento climático, a prevenção de riscos e a adaptação da cidade aos efeitos das mudanças climáticas. As iniciativas foram detalhadas durante o I Workshop “Plano Climático de Natal: Adaptação e Mitigação”, realizado na sede do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio Grande do Norte (Crea-RN).
A mesa de abertura foi composta pelo secretário municipal de Meio Ambiente e Urbanismo, Sérgio Pinheiro, que representou o prefeito Paulinho Freire; pelo presidente da Fundação Norte-Rio-Grandense de Pesquisa e Cultura (Funpec), professor Aldo Dantas, representando o reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN); e pelo presidente do Crea-RN, engenheiro Roberto Wagner Costa.
Sérgio Pinheiro agradeceu às instituições parceiras na realização do workshop e destacou a importância da conexão entre poder público, comunidade científica e sociedade. O secretário também reconheceu o trabalho iniciado pelo ex-titular da pasta, Thiago Mesquita, e ressaltou a continuidade das ações pela atual gestão.
“O objetivo deste dia é exatamente fortalecer essa conexão com a sociedade. Trago o agradecimento e o apoio do prefeito Paulinho Freire a esse trabalho, ao qual estamos dando continuidade. A política climática exige cooperação, continuidade e a participação de diferentes áreas”, afirmou.
Pinheiro também agradeceu à equipe da Semurb, da Funicern, da Funcitern e aos servidores responsáveis pela operação diária dos equipamentos, aos profissionais técnicos, além dos professores e pesquisadores do Geoma/UFRN e das equipes envolvidas nos projetos AdaptAÇÃO e Participatory Analytics for Climate Health Adaptação (Patcha).
Na palestra de abertura, “Do Plano à Prática: Perspectivas Climáticas para o Município de Natal”, o secretário apresentou a estrutura de monitoramento instalada no município e os projetos que deverão apoiar o planejamento urbano e a resposta a eventos climáticos extremos.
“Uma das minhas primeiras preocupações ao chegar à Semurb foi pensar em como disponibilizar essas informações para a sociedade e também compartilhá-las com outros municípios do Rio Grande do Norte, para que possam construir políticas semelhantes. Esta é uma primeira discussão, e será fundamental que a população conheça esses dados, aproprie-se deles e participe da construção das soluções que ajudam a tomar decisões e reduzir riscos”, concluiu Sérgio Pinheiro.
O presidente do Crea-RN, Roberto Wagner Costa, destacou que os efeitos das mudanças climáticas já fazem parte da realidade das cidades. Para ele, a construção das respostas exige diálogo entre diferentes instituições e setores da sociedade.
“As mudanças climáticas vêm se desenhando há muito tempo e já nos afetam diretamente. Mas também dispomos de tecnologias de monitoramento que podem contribuir para enfrentar esses problemas. Precisamos reunir os diferentes agentes para discutir o tema com a robustez necessária. O Crea-RN busca cumprir esse papel de conexão, apoiando e promovendo discussões como esta”, acrescentou.
Já o presidente da Funpec, professor Aldo Dantas, destacou a necessidade de aproximar o conhecimento produzido na universidade das demandas da população e colocou a instituição à disposição para colaborar com novas ações.
“As mudanças climáticas são um tema que não podemos mais evitar; precisamos encará-lo de frente. A Funpec exerce esse papel de ligação entre aquilo que é produzido pela universidade e a sociedade. Estamos à disposição para contribuir com a educação climática, fortalecer a relação com o Crea-RN e a Semurb e colaborar com outras iniciativas voltadas ao cuidado com a nossa cidade”, declarou.
Monitoramento hidrológico e climático
Atualmente, a Rede de Monitoramento Hidrológico e Climático de Natal possui mais de 60 pontos distribuídos pelas quatro regiões administrativas da cidade. A estrutura reúne 118 equipamentos, entre pluviômetros manuais e automáticos, termohigrômetros, estações meteorológicas e sensores. A previsão é instalar mais quatro estações meteorológicas e ampliar a rede para 150 equipamentos até o final de 2026.
Os dados coletados permitem acompanhar chuva, temperatura, umidade e outras variáveis climáticas, além de apoiar a emissão de avisos meteorológicos, o monitoramento de eventos extremos e a identificação de áreas mais vulneráveis a alagamentos e ondas de calor.
“As mudanças climáticas afetam diferentes áreas da cidade e exigem respostas integradas. Precisamos aproximar o conhecimento científico do planejamento público para identificar riscos, estabelecer prioridades e transformar os estudos em ações concretas de prevenção, adaptação e mitigação. Esse trabalho conjunto é fundamental para preparar Natal para os desafios atuais e futuros”, afirmou Sérgio Pinheiro.
Entre as iniciativas apresentadas está o Centro de Mudanças Climáticas, previsto para funcionar no Bosque das Mangueiras. O espaço deverá contar com uma equipe de meteorologistas e cientistas climáticos para acompanhar as condições do tempo e do clima, emitir avisos aos órgãos responsáveis e monitorar eventos extremos climáticos e hidrológicos.
Também foram destacados o inventário municipal de emissões de gases de efeito estufa, que reúne informações referentes ao período de 2000 a 2023, e o projeto “Mitigação e adaptação às mudanças climáticas: preparando Natal para 2050”. Em execução, a iniciativa deverá produzir diagnósticos, dados e ferramentas voltados ao planejamento urbano sustentável, à redução dos riscos climáticos e ao fortalecimento da atuação da Defesa Civil.
Outros projetos apresentados envolvem estudos sobre clima e saúde em comunidades vulneráveis, assistência técnica para o aperfeiçoamento do planejamento urbano, inventário da arborização, gestão de áreas verdes, geoprocessamento e modelos para priorizar ações de mitigação de riscos e redução das emissões de dióxido de carbono.
Na palestra “Natal 2050: desafios e caminhos para a adaptação e mitigação às mudanças climáticas”, o coordenador do Geoma/UFRN, professor Cláudio Moisés Santos e Silva, explicou, entre outros pontos, que o projeto está organizado em quatro frentes: diagnóstico climático, monitoramento e alertas, qualidade do ar e comunicação com o poder público e a população. A primeira etapa, iniciada em 2026, é dedicada à implantação da estrutura, enquanto os alertas em tempo real estão previstos a partir de 2027.
“Vamos transformar Natal na cidade mais bem monitorada do Brasil, pois estamos construindo uma estrutura capaz de transformar dados científicos em informações úteis para a gestão pública e para a população. O projeto permitirá acompanhar eventos extremos, monitorar lagoas, avaliar a qualidade do ar e emitir alertas em tempo real”, destacou Cláudio Moisés.
Segundo o pesquisador, o projeto reúne 14 metas distribuídas nas quatro frentes e prevê, entre outros produtos, climatologias, mapas meteorológicos, monitoramento da qualidade do ar, boletins destinados à população e relatórios para os órgãos públicos. A estrutura também contará com uma torre micrometeorológica para medições relacionadas ao balanço de energia, calor, água e dióxido de carbono.
O trabalho de monitoramento realizado pela Prefeitura do Natal, por meio da Semurb, pode ser acompanhado na página oficial da pasta.
Ações preventivas do Município
Na palestra “Natal diante das mudanças climáticas: riscos e vulnerabilidades”, José Geraldo Moura da Fonseca Júnior e Arthur Vinicius Souza da Costa, da Defesa Civil Municipal, mostraram como o monitoramento meteorológico contribui para identificar áreas mais expostas e orientar as ações preventivas do Município.
Os dados apresentados indicam que, no primeiro semestre de 2026, o volume de chuva em Natal ficou 23,2% acima da média histórica considerada no levantamento. A distribuição, porém, não ocorreu de maneira uniforme: bairros como Ponta Negra, Lagoa Azul e Pajuçara registraram elevados acumulados, enquanto a Zona Norte concentrou 63,2% das ocorrências atendidas pela Defesa Civil, com 259 vistorias.
“O monitoramento mostra que a chuva não se distribui da mesma forma por toda a cidade e que os impactos também são diferentes em cada território. A Zona Norte concentrou a maior parte das ocorrências, especialmente em áreas com problemas históricos de drenagem e transbordamento de lagoas. Quando reunimos os dados meteorológicos com as vistorias em campo, conseguimos identificar as regiões mais vulneráveis, antecipar riscos e direcionar melhor as ações de prevenção e resposta”, destacaram os representantes da Defesa Civil.
A apresentação também destacou a importância da integração das informações produzidas pelo Inmet, Semurb/Geoma, Cemaden, CPTEC/Inpe e Emparn para o acompanhamento das condições meteorológicas.
Educação climática
A integração entre monitoramento, educação ambiental e participação comunitária foi apresentada pela assessora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação (SME), Mariana de Vasconcelos. O projeto “Mudanças Climáticas nas Escolas”, desenvolvido em parceria com a Semurb, envolve aproximadamente 15 mil estudantes das quatro regiões administrativas de Natal.
Atualmente, 29 escolas municipais participam da Rede de Monitoramento Hidrológico e Climático. O trabalho também envolve escolas estaduais (1), universidades (3), uma instituição e um centro de ensino distribuídos em diferentes áreas da cidade. Nas unidades escolares, alunos, professores e funcionários participam da coleta diária de informações sobre chuva, temperatura e umidade. A atividade utiliza pluviômetros manuais e termohigrômetros e contribui para o letramento científico, a compreensão do microclima e a conscientização sobre eventos extremos e ilhas de calor.
Parte das escolas foi selecionada por estar inserida nas bacias de drenagem de lagoas urbanas de captação. Os dados produzidos pela comunidade escolar ajudam a formar uma base municipal de informações e aproximam o conhecimento científico da realidade dos bairros. A participação transforma o monitoramento em uma experiência concreta de aprendizagem. Os estudantes compreendem o que acontece no território onde vivem e, ao mesmo tempo, contribuem para a produção de informações que podem apoiar o planejamento da cidade. É uma ação que une educação ambiental, ciência cidadã e participação comunitária.
Entre as próximas etapas estão a expansão dos equipamentos para unidades ainda não contempladas, a ampliação das atividades pedagógicas e a criação de um Núcleo de Educação Climática no Bosque das Mangueiras. A meta apresentada é avançar dos atuais 40% de atendimento para alcançar todas as escolas da rede municipal.
Debate intersetorial
A programação contou ainda com a palestra conduzida por Paula Fernanda Brandão Batista dos Santos, da UFRN/PET Saúde-Clima. No encerramento, foram apresentados os resultados do projeto e os produtos derivados do Plano de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas de Natal (PMAMC). Essa etapa reuniu profissionais das áreas de geoprocessamento e meteorologia envolvidos na produção dos estudos: Elizabeth Gadelha Vital, Thales Nunes Martins de Sá, Glenda Yasmin Pereira de Carvalho e Itauan Dayvison Gomes de Medeiros.
As discussões reforçaram a necessidade de integrar dados científicos, políticas públicas e participação social para que o município avance de uma atuação predominantemente reativa para uma gestão preventiva, capaz de antecipar riscos e orientar decisões de longo prazo.
O workshop
Promovido pela Prefeitura do Natal, pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), pelo Grupo de Estudos Observacionais e de Modelagem da Interface Biosfera-Atmosfera (Geoma), e com o Crea-RN, o encontro reuniu pesquisadores, gestores públicos e profissionais de diferentes áreas.
Também participaram do encontro representantes da Federação dos Municípios do Rio Grande do Norte (Femurn), da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), da Companhia de Serviços Urbanos de Natal (Urbana), do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), da Mútua e do Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN). O órgão ministerial foi representado pela titular da 45ª Promotoria de Justiça de Defesa do Meio Ambiente de Natal, promotora de Justiça Rachel Medeiros Germano.
Também estiveram presentes estudantes, professores e pesquisadores da UFRN, do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e do Centro Universitário do Rio Grande do Norte (Uni-RN), além de representantes das secretarias municipais de Educação (SME), de Planejamento (Sempla) e de Segurança Pública e Defesa Social (Semdes), da Defesa Civil e da Agência Reguladora de Serviços de Saneamento Básico do Município do Natal (Arsban).
Participaram ainda representantes do Exército Brasileiro, do Corpo de Bombeiros Militar, da Funcitern, da Funpec, da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (Fiern), do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh).



