O nó que Alexandre de Moraes não conseguiu desatar na relação entre Lula e Alcolumbre

Foi preciso esforço nos bastidores do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes para conseguir promover um encontro entre o presidente Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), depois de três meses de afastamento provocado pela rejeição do ministro Jorge Messias para uma vaga no tribunal. Mas uma barreira ele ainda não conseguiu superar, apesar de várias tentativas: ter ele mesmo uma conversa com o advogado-geral da União, que assim como vários integrantes do governo Lula atribuem a Moraes parte da responsabilidade pela derrota histórica no Senado.

Desde o resultado da votação no Senado, o ministro do Supremo tentou entrar em contato com Messias várias vezes, todas sem sucesso. A interlocutores, Messias costuma dizer que considera o episódio superado e que não guarda mágoas de ninguém. Mas a recusa em atender às ligações de Messias indica que a votação no Senado foi um divisor de águas na relação entre os dois.

“Messias tem suspeitas fortes de que Moraes trabalhou contra ele”, disse um aliado do chefe da AGU ao blog.

As suspeitas são reforçadas pelos relatos obtidos pela equipe da coluna com seis fontes que acompanharam de perto as movimentações no Senado na época da sabatina, entre integrantes do STF, do Congresso e agentes do meio político e jurídico, Moraes se engajou para reforçar os pedidos de Alcolumbre na campanha pelos votos “não” contra Messias, acionando emissários para mandar recados a senadores que tinham processos no Supremo ou alguma ligação com seus aliados no Congresso.

A última vez que o Senado havia barrado uma indicação para o STF havia sido em 1894, no governo Floriano Peixoto. Mas Alcolumbre, Moraes e a tropa de choque bolsonarista, cada um com a sua própria agenda, somaram forças e implodiram um precedente que estava intacto há mais de um século.

Moraes via numa eventual nomeação do indicado de Lula como um revés para si próprio. Apoiado por André Mendonça, que se esforçou pessoalmente em angariar votos entre os senadores, Messias poderia desequilibrar o jogo no Supremo a favor do relator do caso Master, alterando a correlação de forças na Corte.

Mendonça foi o principal cabo eleitoral de Messias e se tornou o maior contraponto a Moraes no Supremo, dando sinais que pretende ir a fundo nas investigações do Master. A apuração já trouxe à tona o contrato de R$ 129 milhões da advogada Viviane Barci de Moraes, mulher de Moraes, com o banco de Daniel Vorcaro para defender o interesse do Master em órgãos como o Banco Central, a Receita Federal, o Cade e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), mas em todos eles a atuação dela é desconhecida.

E assim como Alcolumbre, Moraes ficou contrariado com a decisão de Lula de preterir o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) em favor do chefe da AGU.

Na conversa entre Lula e Alcolumbre, ocorrida na casa de Moraes, o presidente do Senado disse que foi o primeiro a alertar o Palácio do Planalto de que Messias não teria os 41 votos suficientes para confirmar a sua indicação para a vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, em outubro do ano passado.

Nas vésperas da votação, lideranças do governo no Congresso, como o senador Jaques Wagner, garantiram a Lula que Messias passaria, ainda que por um placar apertado, o que não se concretizou.

“Alcolumbre acha que não cometeu nenhuma falha com o presidente Lula, porque o avisou dos riscos de rejeição de Messias”, disse ao blog uma fonte a par das discussões nos bastidores. “Eles não conversaram se o Lula vai mandar ou não vai mandar de novo a indicação de Messias. Não houve conversa sobre o futuro, mas sobre o passado.”

No caso de Messias com Moraes, ainda não houve conversa nenhuma.

Malu Gaspar – O Globo

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