Meta-frase: Ser um conservador está mais ligado com a forma de agir e de pensar os atos do dia a dia, do que com qualquer opinião político-partidária.
A palavra conservadorismo urgiu no debate público brasileiro nos últimos anos, e, com ela, milhares de pessoas se autoproclamando conservadoras. Sem dizer direito o que estariam dispostos a conservar, mas rejeitando políticos ditos de esquerda e repetindo chavões memorizados como Deus, pátria e família, criou-se um engodo do que seria um movimento político essencialmente conservador. Mas, se a idolatria a candidatos
antiprogressistas não faz alguém conservador, a pergunta que fica é – como se tornar um?
A resposta parece estar nos escritos do filósofo britânico Roger Scruton; e, aqui, faz-se um alerta: se você, leitor, é adepto a opinião exarada pelo senso comum, pare agora ou poderá cair em uma espiral de desilusão e angústia. Isso porque ser conservador não está ligado a ser religioso, bem como não é sinônimo de aversão a homossexuais ou repúdio a pautas ambientalistas. A verdade no conservadorismo, diz Scruton, está em reconhecer que ‘’é correto conservar quando algo pior é proposto em substituição’’.
Nessa conjuntura, percebe-se que conservadorismo não é sinônimo de reacionarismo ou qualquer outro movimento que tenha como objetivo parar no tempo e retornar ao passado. Por isso, não existe essa coisa de conservador nos costumes, uma vez que nem todos os hábitos são virtuosos e saudáveis. Se em vez da escravidão surge o trabalho assalariado, o conservador defende tal mudança e luta por ela, como pode se constatar ao perceber que as leis abolicionistas aprovadas no Brasil Império vieram de governos conservadores.
Essa prudência na maneira de agir e de pensar é fruto do conhecimento histórico inerente ao movimento conservador. Ao perceber que mudanças radicais trouxeram consequências imprevisíveis e quase sempre desastrosas, os conservadores optaram por adotar o ceticismo político para nortear o seu caminho na pólis. Assim, evitam acreditar em salvadores da pátria e preferem ‘’as tentativas honestas de viver de acordo com as próprias ideias, cuidando de suas famílias, apreciando as comunidades, cultuando os seus deuses e adotando uma cultura determinada e confirmada’’ pela passagem do tempo.
E o que isso tem a ver com a sexualidade de uma pessoa? A prudência e o ceticismo diários que identificam a filosofia conservadora não pode ser exercida por um homossexual? Mais ainda, será que não existem religiosos que seguem propostas ilusórias de políticos que prometem resolver todos os problemas sociais, fazer o paraíso na terra e trazer picanha para a mesa de todos? E o respeito com as boas coisas que nos são herdadas, não abrangem as belezas naturais que devemos conservar para que as futuras gerações também desfrutem? Percebe-se, então, o conservadorismo como um pacto entre gerações, que consiste em aprender com os erros do passado, para não Comete-los no presente, e assim, proteger o futuro.
Diante disso, nota-se que se autodenominar conservador não faz alguém ser um. Na verdade, precisa-se pensar e agir com prudência, ceticismo e respeito às tradições, conservando aquilo que deu certo e fez a sociedade crescer e prosperar. Por isso, se você quer se tornar conservador, comece não apoiando cegamente quem quer que seja, mas sim cuidando da sua família e lutando para que outras pessoas (políticos, burocratas, celebridades etc.) não consigam destruir o que vocês construíram ou determinar o que vocês devem ou não fazer.
Ítalo Caetano da Silva é advogado, especialista em Ciência Política e Liberalismo, e vereador de Tibau do Sul




