Delação do ex-presidente do BRB: Dias Toffoli pode ser ministro mais “exposto”

Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), confirmou nesta terça-feira (28) ao ministro André Mendonça, relator do caso no STF, seu interesse em firmar uma colaboração premiada.

Preso há mais de 15 dias no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, Costa é apontado como peça central no esquema que envolveu a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB.

Costa era o homem que fazia a ponte entre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, o mundo político de Brasília e o sistema financeiro. Seu celular, já em posse da PF, contém mensagens que revelam negociações sobre imóveis, cobranças sobre carteiras fraudulentas e diálogos com figuras de poder. A delação, portanto, tem potencial para atingir múltiplas esferas de autoridade.

A seguir, com base no que já foi apurado e publicado pela imprensa, os principais alvos e temas que a delação pode alcançar:

 

1. Ministro Dias Toffoli (STF): O mais exposto

Toffoli é, disparado, a autoridade mais vulnerável caso a delação avance. Múltiplas reportagens já documentam:

Pagamentos via resort Tayayá: A Folha de S.Paulo revelou que Toffoli passou o Réveillon de 2026 no resort Tayayá, no Paraná, enquanto era relator do caso Master. A PF identificou que o pagamento pela venda desse mesmo resort à empresa Maridt S.A. (da qual Toffoli e sua família são sócios) veio do Fundo Arleen, cujo único cotista era o Fundo Leal, que tinha como cotista exclusivo Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. Ambos os fundos estavam na REAG, empresa liquidada pelo Banco Central.

Viagem de jatinho: A CNN Brasil revelou que Toffoli viajou em jatinho particular pertencente a um advogado do Banco Master para assistir à final da Libertadores de 2025, pouco antes de o caso cair em suas mãos por sorteio no STF.

Acareação atípica: Como relator, Toffoli tomou a medida incomum de convocar uma acareação entre Vorcaro, Costa e o diretor de Fiscalização do Banco Central antes mesmo de depoimentos individuais — decisão questionada por investigadores.

Tentativa de controle sobre a investigação: Segundo O Globo e a CNN, Toffoli tentou determinar quais peritos da PF poderiam acessar o caso e pediu a custódia de provas.

Mensagens no celular de Vorcaro: Relatório da PF encaminhado ao presidente do STF, Edson Fachin, contém dados extraídos do celular de Vorcaro com menções a supostos pagamentos direcionados a Toffoli, o que levou o ministro a deixar a relatoria em fevereiro.
O que Costa pode revelar: detalhes sobre a estrutura financeira usada para pagar Toffoli, se houve contrapartida judicial, quem intermediou os repasses e se existiam outros benefícios não documentados.

2. Ex-governador Ibaneis Rocha (MDB-DF): O autorizador político

O Globo publicou que Costa é “a chave para entender o papel de Ibaneis” na tentativa de compra do Master pelo BRB. O ex-governador do Distrito Federal é, no mínimo, apontado como quem autorizou a operação de aquisição do Master pelo banco público que o DF controla.

Costa foi indicado por Ibaneis para a presidência do BRB.

Até a troca de advogados, Costa era defendido por Cléber Lopes, advogado próximo de Ibaneis — o que sugere uma tentativa inicial de manter alinhamento com o ex-governador.

A PF investiga se políticos receberam vantagens indevidas para viabilizar a operação BRB-Master.

O que Costa pode revelar: se Ibaneis tinha conhecimento do esquema de propinas, se participou de reuniões sobre a negociação, se recebeu benefícios financeiros e quais outros políticos do DF estavam envolvidos.

3. Daniel Vorcaro e a rede de propinas: O núcleo financeiro

Vorcaro, dono do Master, está preso e também negocia sua própria delação na Superintendência da PF em Brasília. A relação entre as duas delações — de Costa e de Vorcaro — é explosiva porque uma pode confirmar, contradizer ou ampliar a outra.

A PF aponta que Costa combinou com Vorcaro o recebimento de R$ 146,5 milhões em propina, repassados por meio de imóveis de luxo, incluindo o imóvel conhecido como Casa Lafer.

Mensagens extraídas dos celulares de ambos mostram negociações abertas sobre valores de imóveis, cobranças sobre carteiras de crédito fraudulentas e estratégias para ocultar a origem do dinheiro.

O esquema envolve R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito sem lastro vendidas pelo Master ao BRB, além de CDBs com rendimentos de até 40% acima da taxa básica, usados para captar recursos no mercado.

O que Costa pode revelar: a mecânica completa das fraudes, quem mais recebeu imóveis ou valores, quais empresas de fachada foram usadas e como o dinheiro circulava.

4. Outros ministros do STF e o Procurador-Geral da República

O relatório rejeitado da CPI do Crime Organizado no Senado — apresentado pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) — propunha o indiciamento de Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes por suposto envolvimento no caso Master, além do procurador-geral Paulo Gonet. Embora o relatório tenha sido derrubado por 6 votos a 4, os indícios que o embasaram permanecem.

Gilmar Mendes integra a Segunda Turma do STF que julga o caso e votou pela manutenção da prisão de Costa — mas sua atuação é observada com atenção, especialmente após os embates públicos com Zema e as acusações de conflito de interesses envolvendo o IDP e a CBF.

A PGR, chefiada por Paulo Gonet, é quem deve receber e analisar a delação de Costa. Há questionamentos sobre a isenção do órgão, já que Gonet foi citado no relatório da CPI como passível de indiciamento.

O que Costa pode revelar: se houve interferência de outros magistrados no andamento do caso, se existiam combinações entre investigados e autoridades, e qual era o nível de proteção política ao esquema.

5. O sistema financeiro e o Banco Central

A Operação Compliance Zero também investiga a atuação de agentes do sistema financeiro. O diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, foi convocado por Toffoli para prestar depoimento ao lado dos investigados — uma medida que gerou estranheza, já que Aquino não é investigado, mas sim representante da autoridade reguladora.

A investigação apura por que o BC demorou a intervir no Master, apesar dos sinais de fraude nas carteiras de crédito.
O bloqueio de bens determinado pela Justiça já soma até R$ 27,7 bilhões.

Até o momento, 13 pessoas foram presas e 96 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em seis estados.

O que Costa pode revelar: se houve conivência ou omissão de agentes do BC, quais instituições financeiras tinham conhecimento das fraudes e quem mais no mercado se beneficiou do esquema.

O cenário político da delação

A colaboração premiada de Costa acontece num momento de alta tensão institucional. O Senado se prepara para a sabatina de Jorge Messias ao STF, a oposição pressiona por impeachment de ministros da Corte e o caso Master já é considerado o maior escândalo financeiro do Brasil desde o Mensalão.

Se a delação for aceita pela PGR e homologada pelo STF, o impacto pode ser comparável ao da Odebrecht na Lava Jato: um delator que estava no centro de todas as negociações, com acesso privilegiado a políticos, banqueiros e magistrados.

Blog do Gustavo Negreiros

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