Em 1º de abril, a agência espacial norte-americana Nasa lançou a missão Artemis II, levando astronautas ao espaço profundo pela primeira vez em mais de 50 anos. O objetivo principal, que transcende a exploração lunar, é catalisar avanços cruciais na medicina, prometendo impactar diretamente a saúde humana e a qualidade de vida no planeta Terra.
Luiz Vicente Rizzo, diretor de Pesquisa do Hospital Albert Einstein, em entrevista à CNN Brasil, explica que um dos estudos centrais da missão busca prever e ajustar as condições para futuras viagens, como a Marte. O estudo “Avatar” (A Virtual Astronaut Tissue Analog Response) investiga os efeitos do aumento da radiação e da microgravidade na saúde, além de identificar características extraterrestres que aceleram o envelhecimento celular.
Durante a Artemis II, foram utilizados chips de órgãos, criados a partir de células-tronco da medula óssea dos próprios tripulantes. Estes pequenos dispositivos, do tamanho de um pen drive, auxiliam a prever como uma pessoa pode reagir a estressores como radiação e tratamentos médicos. “É possível entender sobre envelhecimento de células-tronco e medicina personalizada, pois é muito provável que os astronautas tenham diferentes decaimentos de célula”, destaca Rizzo.
Para uma análise aprofundada, células dos astronautas foram colhidas e mantidas na Terra no dia do lançamento, enquanto outras foram para o espaço. “Assim, será possível comparar as duas e ver as diferenças individuais, para a medicina de precisão, voltada para o indivíduo”, esclarece o pesquisador. A Nasa ressalta que a medula óssea, vital para o sistema imunológico e a produção de células sanguíneas, é um dos órgãos mais sensíveis à radiação, tornando seu estudo crucial para voos tripulados.
Os benefícios desses estudos não se restringem aos astronautas. Rizzo enfatiza que as descobertas serão válidas para o corpo humano em geral: “Será possível estudar o envelhecimento, doenças degenerativas… há uma enorme possibilidade de entendimento de condições adversas sobre o corpo humano.”
Impacto no sistema cardiovascular e telemedicina
O doutor Fábio Lario, cardiologista e Gerente Médico de Informática Clínica do Hospital Sírio-Libanês, complementa, explicando como as alterações cardiovasculares no espaço podem gerar novos conhecimentos. “Nosso coração e nossos vasos sanguíneos, puxados pela gravidade em direção às pernas, perdem essa força no espaço, levando ao aumento de líquidos na região do crânio. Isso provoca inchaço no nervo ótico, com risco de perda de visão, algo que também observamos em doenças que aumentam a pressão intracraniana.”
O isolamento dos astronautas, segundo Lario, também impulsiona a telemedicina, permitindo testar novas tecnologias como biossensores para levar consultas a áreas sem acesso a especialistas. Ele também destaca a perda de massa óssea e muscular em missões longas. “Essa exposição e esse efeito aumentado que os astronautas estão sendo submetidos, juntamente com toda a tecnologia que eles estão levando para estudar esses efeitos, podem também nos trazer avanços bem interessantes em relação a essas condições que a gente vive no dia a dia aqui no nosso planeta.”
Próximos passos da exploração
Durante seus 10 dias de missão com a espaçonave Orion, lançada por volta das 19h30 (horário de Brasília) também em 1º de abril, os astronautas sobrevoaram o lado oculto da Lua, atingindo o ponto mais distante já alcançado por um ser humano no espaço. Os avanços foram acompanhados globalmente em tempo real por transmissões da Nasa.
Os próximos passos já estão definidos:
- Artemis III (prevista para 2027): deve aprofundar os testes antes do retorno à superfície lunar;
- Artemis IV (prevista para 2028): missão que pode marcar a volta do ser humano à Lua.




