Redução da escala 6×1 pode eliminar até 1,2 milhão de empregos no país

A proposta de acabar com a escala 6×1 — modelo em que o trabalhador atua seis dias consecutivos para ter um de descanso — voltou ao centro do debate com a tramitação de propostas que preveem a redução da jornada semanal de 44 para até 36 horas, sem diminuição proporcional dos salários. A mudança, defendida como forma de ampliar o descanso e melhorar a qualidade de vida, acende um alerta entre entidades empresariais e especialistas em economia. Estudos apontam que, caso a redução ocorra sem compensações de produtividade, o país poderá registrar impactos relevantes no mercado formal de trabalho, com estimativas que variam de 638 mil a até 1,2 milhão de empregos a menos no primeiro ano, além de retração na atividade econômica.

O setor de comércio e serviços, que concentra grande parte dos vínculos formais e opera com margens mais estreitas e forte dependência de mão de obra, aparece entre os mais sensíveis à mudança. Levantamentos do Centro de Liderança Pública (CLP) e da Fecomercio-SP indicam que a elevação do custo da hora trabalhada pode pressionar preços, reduzir contratações e estimular a informalidade, especialmente entre micro, pequenas e médias empresas, responsáveis por parcela significativa da geração de empregos no país.

De acordo com o estudo do Centro de Liderança Pública (CLP), caso a jornada seja reduzida sem compensações poderá haver impactos negativos no emprego formal e na atividade econômica. Na simulação para o Brasil, baseada em evidências de reforma semelhante em Portugal, o CLP estima queda de cerca de 1,1% no emprego formal (aproximadamente 638 mil postos) e retração de 0,7% no PIB, equivalente a R$ 88 bilhões em atividade econômica não gerada.

Cálculos da Fecomercio-SP também apontam que o fim da escala 6×1, com manutenção dos salários, elevaria em cerca de 22% o custo da hora trabalhada, percentual muito acima dos reajustes anuais negociados em convenções coletivas, entre 1% e 3%. Pela simulação da entidade, a redução de cerca de 18% na carga horária semanal tornaria a medida inviável para muitos negócios, especialmente os de menor porte.

A projeção, segundo a Fecomercio-SP, é de eliminação de até 1,2 milhão de vagas no primeiro ano, considerando que cerca de 63% dos vínculos trabalhistas têm contratos entre 41 e 44 horas semanais. Setores intensivos em mão de obra, como varejo e serviços essenciais, estariam entre os mais afetados.

Um levantamento da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados aponta que 84% dos brasileiros defendem ao menos dois dias de descanso semanal e que 73% apoiam o fim da escala 6×1 sem redução salarial. O apoio, porém, cai para 30% quando há possibilidade de perda de renda.

Marcelo Queiroz: empresas não aguentam aumento de custos | Foto: Alex Régis

Segundo Daniel Duque, head de Inteligência Técnica do CLP, os efeitos econômicos se concentram em setores com maior proporção de contratos acima de 40 horas e grande volume de empregos formais. “Pela intensidade do choque, destacam-se comércio (9% de ‘horas tratadas’), agropecuária (9%) e construção (8,9%), seguidos por indústria de transformação (8,6%). Em perdas absolutas, pesam especialmente ‘outras atividades de serviços’ (-169.978) e comércio (-164.149)”, explica.

Duque afirma que a experiência portuguesa é comparável por envolver a redução legal da jornada de 44 para 40 horas, sem regra explícita de redução salarial, permitindo observar como o aumento do custo por hora gerou ajustes em emprego e produção.

O estudo também aponta um aparente paradoxo: queda no emprego e na produção, com aumento da produtividade por hora. “Não é paradoxo. Quando a jornada cai sem queda proporcional do salário mensal, o salário-hora sobe e as firmas tendem a reduzir horas totais, emprego e vendas, mas podem extrair mais produção por hora trabalhada”, afirma, ressaltando que o ganho não compensa integralmente os custos.

Para Duque, a discussão deve ir além da oposição entre bem-estar e economia. “O debate deveria ser qual desenho e quais condições elevam a produtividade para evitar aprofundar a distância do Brasil em relação aos países com os quais compete por dinamismo e convergência”, conclui.

Impactos da proposta na economia potiguar

Na análise setorial, comércio, agropecuária e construção civil concentram os maiores impactos. O presidente da Fecomércio-RN, Marcelo Queiroz, critica a simplificação do debate. “Não compactuamos com propostas que tratam a eliminação da escala 6×1 como se fosse um ‘benefício mágico’ para o trabalhador, sem enxergar os riscos reais que isso traz à economia”, diz.

Queiroz avalia que pequenas e médias empresas não têm fôlego para absorver um aumento abrupto de custos. “Não é apenas uma questão de poder ou não absorver custo, mas de preservar a sustentabilidade econômica das empresas que empregam a maioria dos brasileiros”, diz.

Outro efeito danoso, segundo ele, seria o repasse de preços ao consumidor. “Sem ganhos de produtividade, o caminho quase inevitável é o repasse de custos ou a retração da atividade, afetando diretamente o bolso do consumidor”, afirma Queiroz. Há ainda risco de avanço da informalidade e da automação, com empresas reduzindo contratações formais ou substituindo postos por tecnologia.

A indústria potiguar, já pressionada por custos elevados, necessidade de modernização e baixa produtividade, teria dificuldade para absorver, no curto prazo, o aumento do custo da hora trabalhada decorrente de uma eventual mudança na jornada. A avaliação é do presidente da Federação das Indústrias do RN (Fiern), Roberto Serquiz. “Reduzir a jornada sem reduzir salário eleva o custo da hora trabalhada. Em um cenário de baixa produtividade e necessidade de modernização do parque industrial, a conta não fecha”, afirma.

Ele lembra que o Brasil ocupa posições inferiores nos rankings globais de produtividade por trabalhador e por hora, segundo a Organização Internacional do Trabalho, o que limita ganhos de eficiência. Dados do Centro de Liderança Pública (CLP) reforçam o diagnóstico ao apontar a indústria de transformação entre os segmentos mais expostos: a simulação indica impacto estimado de cerca de 1,5% no emprego formal, mais de 120 mil postos em nível nacional, além de queda da produtividade por trabalhador.

Embora os números sejam nacionais, a Fiern avalia que estados com estrutura produtiva mais sensível, como o Rio Grande do Norte, tendem a sentir efeitos mais intensos. “Os setores mais intensivos em mão de obra e as micro e pequenas empresas seriam os mais impactados”, observa Serquiz. Ele cita estudos da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que estimam a possibilidade dos custos diretos da indústria formal subirem em cerca de R$ 178,8 bilhões, com a redução da jornada para 36 horas semanais.

Na prática, o dirigente aponta três reações possíveis das empresas: desaceleração das admissões, maior automação, quando viável e avanço da informalidade. “O risco é claro: desaceleração das contratações e pressão adicional sobre o emprego formal”, diz.

Para a Fiern, o debate deve considerar outras mudanças estruturais, como a transição da Reforma Tributária. Serquiz defende priorizar ganhos de eficiência antes de alterar o limite legal da jornada. “O foco deveria estar em produtividade, qualificação profissional, modernização industrial e melhoria do ambiente de negócios. Sem esses fundamentos, reduzir jornada pode gerar mais custos do que benefícios”, conclui.

Roberto Serquiz: há risco claro de desaceleração das contratações | Foto: Magnus Nascimento

O que está em tramitação

A PEC 148/2015, do senador Paulo Paim (PT/RS), prevê a redução gradual da jornada de 44 para 36 horas semanais, com até cinco dias de trabalho. A proposta foi aprovada em 10 de dezembro de 2025 na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, mas ainda precisa passar por duas votações no plenário do Senado e duas na Câmara, com quórum mínimo de 49 senadores e 308 deputados. Se aprovada, o fim da escala 6×1 será gradual. No primeiro ano, mantêm-se as regras atuais; no seguinte, o descanso semanal sobe de um para dois dias. A jornada máxima, hoje de 44 horas, poderá cair para 40 horas a partir de 2027, chegando ao teto de 36 horas semanais em 2031. A vedação à redução de salários para compensar a mudança, prevista inicialmente, ainda será votada pelo Congresso.

Paralelamente, na Câmara dos Deputados, o presidente Hugo Motta (Republicanos/PB) encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania duas PECs apensadas que também tratam do fim da escala 6×1: a PEC 8/25, da deputada Erika Hilton (PSol/SP), e a PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes (PT/MG). O colegiado analisará a admissibilidade e, se aprovada, a matéria seguirá para comissão especial.

Deu na Tribuna do Norte

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