Embora o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União Brasil) venha divulgando, na mídia e em redes sociais, que tomou medidas preventivas para evitar a fraude na compra de medicamentos, isso só veio a ocorrer 35 dias depois da abertura do inquérito criminal na Delegacia da Polícia Federal de Mossoró, que resultou na deflagração em dia 27 de janeiro da “Operação Mederi”, que investiga desvios de quase R$ 14 milhões na aquisição de remédios pelo município.
O prefeito Allyson Bezerra, que é pré-candidato a governador do Rio Grande do Norte às eleições deste ano, exibiu documento em diversas entrevistas em rádios e TV, principalmente em Natal, apontando que em 28 de dezembro de 2023 publicou no “Diário Oficial” da prefeitura de Mossoró, decreto de nº 6.994 ratificando a obrigatoriedade de utilização do sistema nacional de assistência farmacêutica Hórus, ficando “a Controladoria Geral do município, responsável por acompanhar o cumprimento deste decreto”.
No entanto, a abertura do inquérito criminal para investigar denúncias de desvios de recursos da saúde em Mossoró, ocorreu a 24 de novembro de 2023, segundo apurou a TRIBUNA DO NORTE junto à assessoria de Comunicação Social da PF em Natal.
Allyson Bezerra explicava que o Hórus é o sistema eletrônico de gerenciamento e controle de armazenamento e distribuição de medicamentos, bem como tentava se eximir da responsabilidade como ordenador de despesa, quando assumiu o primeiro mandato em 2019.
“Era o prefeito que licitava, era o prefeito que pagava, era o prefeito que fazia contratos, tudo. Eu, no mês de agosto de 2021, aprovei na Câmara o Podemos Mossoró uma lei, colocando os meus secretários para serem ordenadores de despesa”, afirmava Allyson Bezerra durante as entrevistas.
Bezerra dizia que tirou dele a responsabilidade, da sua caneta: atos de licitação, de contratação e atos de pagamento: “Tudo é com os secretários da Prefeitura de Mossoró”.
Comissão de Inquérito
A vereadora Plúvia Oliveira (PT) confirmou que durante a abertura do ano legislativo programado para a manhã da quarta-feira (11), vai cobrar explicações diretamente ao prefeito Allyson Bezerra sobre as denúncias de corrupção na aquisição de medicamentos, por ocasião da leitura de sua mensagem anual na Câmara Municipal de Mossoró.
Plúvia Oliveira também informou que começou uma ação política nos bairros, a fim de orientar a população em apoio à petição eletrônica disponibilizada na internet, a fim de pressionar os vereadores, principalmente da base governista, a assinarem a criação da CPI.
“Já estamos com quase mil assinaturas”, disse Plúvia Oliveira, que espera que após a abertura dos trabalhos legislativos obtenha o mínimo de assinaturas exigidas para encaminhamento da CPI – sete. Hoje são cinco assinaturas, todas de vereadores da oposição.
A vereador do PT acusa o prefeito de tentar por uma “cortina de fumaça” sobre a denúncia de desvios de recursos públicos e, recentemente, durante a inauguração de uma Unidade Básica de Saúde (UBS), amedrontou vereadores aliados dele: “Agora estou mais corajoso e quem cruzar meu caminho vai se ver comigo”, discursou o prefeito, segundo a vereadora.
Para a vereadora, também não se sustenta a alegação do prefeito Allyson Bezerra de que está sofrendo perseguição política diante de sua decisão de disputar o cargo de governador do Rio Grande do Norte. “Se fosse por questão eleitoral, a deflagração da operação da PF e CGU teria ocorrido em 2024”, disse ela, durante a campanha de reeleição do prefeito.
Levantamento
A Prefeitura de Mossoró pagou R$ 14,2 milhões a empresas investigadas na Operação Mederi, da Polícia Federal, entre os anos de 2021 e 2025. A decisão judicial que autorizou medidas cautelares na investigação apura indícios de irregularidades em contratos na área da saúde em cinco municípios potiguares, e aponta que Mossoró é a principal remetente de recursos à empresa Dismed no período analisado.
Dados extraídos do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Norte (TCE-RN) mostram que os valores pagos pelo município à Dismed, entre 2021 e 2025, somam R$ 13,6 milhões. O pico dos envios ocorreu em 2024, quando os repasses chegaram a quase R$ 6 milhões. A investigação também classifica Mossoró como o Município que mais enviou recursos à Drogaria Mais Saúde em 2025, ao destinar R$ 684,1 mil. Com isso, o volume de recursos movimentados entre 2021 e 2025 com as duas empresas alcança a cifra de R$ 14,2 milhões.
Na edição de 29 de janeiro, a TN revelou que o dano mínimo das supostas fraudes aos cofres públicos das cinco prefeituras investigadas é estimado em R$ 13,3 milhões — valor já bloqueado pela Justiça. Desse montante, a maior parte, R$ 9,5 milhões, foi bloqueada cautelarmente em Mossoró.

Os repasses à Dismed cresceram de forma progressiva ao longo dos anos. Em 2021, os pagamentos somaram R$ 143.895,00. Em 2022, o valor subiu para R$ 1.274.671,80. No ano seguinte, 2023, os repasses alcançaram R$ 3.401.155,73. O maior volume foi registrado em 2024, quando a Prefeitura de Mossoró pagou R$ 5.864.704,79 à empresa. Já em 2025, mesmo antes do encerramento do exercício, os pagamentos identificados chegam a R$ 2.920.640,16.
“O volume de recursos públicos envolvidos, somado ao volume de dinheiro em espécie sacado pelas empresas, por si só, já constituiria circunstância digna de suspeita acerca da licitude da relação mantida com o ente municipal”, diz trecho do documento ao qual a reportagem da TRIBUNA DO NORTE teve acesso.
Para os apuradores, a suspeita de irregularidade na movimentação de recursos entre Município e empresa é reforçada “pela proximidade política entre OSEAS MONTHALGGAN, sócio da DISMED, e ALLYSON BEZERRA (prefeito municipal de Mossoró)”.
Nesse trecho, a investigação apresenta um print da rede social de Oseas Monthalggan, onde ele publicou uma foto ao lado de Allyson com a legenda: “Hoje quero parabenizar a esse prefeito, que na minha concepção um dos melhores do Brasil! Ele também veio pra somar, acredita no nosso projeto”. Allyson responde: “Muito obrigado pela lembrança, meu amigo!”. Monthalggan foi candidato a prefeito em Upanema pelo MDB e recebeu 3.181 votos. Ele foi derrotado por Renan Mendonça Fernandes (PP).
Deu na Tribuna do Norte




