Miséria, lixo, apagões, repressão: a influenciadora que desmascarou a falência de Cuba

Jojo Domingos distribui comida para crianças em Cuba: fartura nos hotéis, miséria nas ruas. (Foto: Reproduçãp/TikTok @jojo_domigos)

“Parecia uma zona de guerra. Parecia que eu tinha desembarcado na Ucrânia, e não em Cuba.”
Assim a influenciadora gaúcha Jojo Domingos descreveu sua primeira impressão de Havana, cidade que visitou em meados de março com dois amigos. Mas o que viria a seguir surpreendeu ainda mais a blogueira de viagens, conhecida pelo jeito “sincerão” de avaliar os destinos turísticos da moda.
Inicialmente hospedada na casa de uma família local, Jojo registrou, em vídeos curtos, um pouco do cotidiano da vida na ilha sequestrada pelo comunismo. E, sem querer, produziu um documento pungente sobre a chocante realidade do povo cubano.
“Sem querer” porque não havia nenhuma intenção política por trás da viagem. Pelo contrário: apaixonada por praias, a influenciadora partiu para Cuba com o objetivo de pegar um bronze no paradisíaco litoral caribenho — e porque os pacotes para o Nordeste brasileiro estão cada vez mais caros.

Tudo começou quando Jojo assistiu a um vídeo de outra blogueira viajante, Marina Guaragna, que recentemente iniciou uma campanha chamada “Vem pra Cuba!”. Patrocinada por uma companhia área, Marina estimula os brasileiros a ajudar os cubanos “apoiando pequenos negócios, movimentando o comércio do país e ajudando diretamente os produtores locais”.
Já em solo cubano, a gaúcha e seus amigos enfrentaram o primeiro perrengue: os cartões de crédito de nenhum deles eram aceitos por lá. “É uma roleta russa. Alguns funcionam, outros não”, afirma a influenciadora, que atualmente mora na Espanha.
Para piorar, cada dólar equivale a vale 320 pesos cubanos — e eles não haviam levado muito dinheiro vivo. “Se você trocar nos câmbios do governo, vão te dar menos da metade do valor em pesos. Então tivemos de trocar num câmbio clandestino”, diz.
Com o equivalente a US$ 15 dólares (R$ 86, na cotação atual), o trio conseguiu comprar, num mercadinho precário, uma bandeja de ovos, três batatas, uma cebola, um quilo de arroz e um pão de forma. Este último, eles descobriram depois, estava estragado, cheio de bichos.

Naquele dia, o grupo só fez duas refeições, preparadas na cozinha de uma acomodação caindo aos pedaços, alugada por meio de um aplicativo de hospedagem. “Com o salário-mínimo de Cuba [US$ 17,50, ou cerca de R$ 100] dá para comprar, no máximo, duas bandejas de ovos”, afirma Jojo.
Lixão a céu aberto
“Essa é outra realidade de Cuba que os blogueiros não te mostram”, diz Jojo Domingos em outro vídeo, apontando para as montanhas de lixo espalhadas pelas calçadas de Havana.
À noite, o passeio no meio do lixão a céu aberto se torna ainda mais deprimente. É que o governo corta a luz das regiões “não turísticas” a partir das 16 horas, e muitas vezes a energia só retorna de madrugada (isso quando não falta água também).
“Tivemos de ir até o centro só para carregar os nossos celulares”, conta a influenciadora, que no segundo dia de viagem não pôde se comunicar com a família — devido a um apagão em todo território cubano que durou 20 horas.
Para voltar à “parte ruim de Havana”, como ela definiu o bairro onde ficaram, o trio se viu obrigado a gastar mais US$ 10 (R$ 57) num táxi. “Apesar de Cuba ser um país extremamente seguro, nos informaram que, quando tem apagão, não é muito bom ficar andando pelas ruas”, afirma.
Sem ter o que comer, e limitados a passeios diurnos, os três chegaram a pensar em voltar para casa antes do previsto. Mas graças a uma manobra organizada por uma seguidora, que conhecia pessoas no país, eles finalmente conseguiram trocar mais dinheiro — e se transferiram para a “parte boa” da cidade.
A partir daí, Jojo passa a postar vídeos que evidenciam os contrastes entre a Cuba real e a turística. Ela mostra hotéis luxuosos, praias paradisíacas (porém proibidas para a população), monumentos comunistas bem conservados e restaurantes com fartura de comida.

Aliás, um dos vídeos mais emblemáticos da série traz os três pegando bolachas, doces e salgados do café da manhã do hotel e depois distribuindo para as crianças nas ruas. Tudo na surdina e muito rápido, para não chamar a atenção da polícia.
“Imagina um país em que você não pode expressar a sua opinião, não pode discordar [do governo]. Se você não aceitar, vai em cana”, afirma.
No encerramento, Jojo confessa que a passagem por Cuba foi a mais marcante de toda a sua trajetória como blogueira viajante.
“Saio daqui com mais empatia, porque essas pessoas talvez nunca tenham a chance de mudar de vida”, diz, antes de pedir aos turistas brasileiros que levem medicamentos e produtos básicos (como papel higiênico, absorvente e pasta de dente) para doar à população local.

Ela ainda ironiza o clichê de que em Cuba não há desigualdade: “Cuba tem igualdade. É todo mundo pobre, abaixo da linha da miséria”.

Lixo acumulado nas calçadas é uma das marcas da capital cubana. (Foto: Reproduçãp/TikTok @jojo_domigos)

Apoio dos exilados 

A cada novo vídeo postado — e viralizado —, a área de comentários do Instagram e do TikTok de Jojo Domingos se tornava uma arena política. Enquanto era apoiada por latinos de outros países e cubanos exilados no Brasil, a blogueira sofria ataques de esquerdistas, que culpam os EUA pelos problemas no país e relativizam a pobreza local.

“A pobreza em Cuba é nítida, até um cego consegue enxergar”, afirma a blogueira em uma mensagem de “esclarecimento” postada após a viagem. “Estão dizendo: ‘Mas todo país tem pobreza’. Quem fala isso nunca saiu do seu bairro, nunca viajou. Nunca vi nada parecido com aquilo.”
Os críticos também se incomodaram com o tom franco e direto da blogueira — considerado por eles “desrespeitoso”. Outros argumentaram que Jojo deveria ter contextualizado mais a história do embargo americano (algo que ela fez em apenas um vídeo).
Por outro lado, influenciadores como Pedro Martin — um equatoriano residente no Brasil há seis anos e que se diz progressista — vieram à público defender Jojo Domingos. “Ela virou a heroína do meu círculo social”, afirmou, referindo à comunidade hispânica do TikTok.
Segundo Martin, Jojo “visitou Cuba por inocência e acabou desmentindo a romantização do país”. “Finalmente, uma influenciadora brasileira peitou os cegos e mostrou a realidade.”

Deu na Gazeta do Povo

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