Referência na pesca do atum e um dos três maiores exportadores do pescado no Brasil, o Rio Grande do Norte tem implantado inovações e métodos que elevam o valor agregado do peixe e tornam o RN um estado modelo na pesca do atum. Um desses mecanismos é a classificação atuneira, que é um detalhamento específico de cada atum, informando desde sua textura, índice de gordura à qualidade da carne. A ação, com detalhes e informações, é única no Brasil, segundo o Sindicato da Indústria da Pesca do RN (Sindipesca-RN), e pode fazer com que um único atum tenha uma variação de 1000% no preço final do quilo entre peixes classificados. Além disso, o Estado tem buscado ampliar a tecnologia de pesca de espinhel com pesquisas envolvendo todo o setor produtivo, num projeto orçado em cerca de R$ 6 milhões.
Além da classificação, o atum potiguar é rastreado com uma série de detalhes. Cada peixe tem um número, que indica o dia da captura, peso, tamanho, espécie, local do oceano que foi pescado, se o peixe embarcou vivo ou morto, característica do barco, localização, entre outras informações.
No Estado, a classificação atuneira é feita em Areia Branca e em Natal, nesse último caso exigindo maior necessidade de detalhes e informações, que tem como foco atuns para mercados de sushi e sashimi. Nesse sentido, segundo César Calzavara, médico veterinário e mestre em recursos pesqueiros e aquicultura e especialista em classificação pesqueira, pelo fato de alguns atuns serem consumidos neste mercado isto é, crus, a classificação de cada peixe é um detalhe praticamente indispensável para o andamento da negociação junto ao cliente final.
“A classificação é uma avaliação sensorial que é feita com nossos os sentidos para podermos fazer uma leitura daquele peixe. Essa classificação é algo comercial, então a depender da “nota” que se dê para aquele peixe, ele vai ter um preço e poderá atingir mercados diferentes, seja ele de exportação ou mercado interno”, explica César. Ele acrescenta ainda que a dinâmica de mercado mudou nos últimos anos em relação à exportações de atum selecionados, com parte dos atuns caros ficando no Brasil.

Na prática, a classificação envolve os seguintes critérios: transparência, brilho e cor da carne; frescor e textura do peixe, linha de sangue, tamanho, gordura, odor, entre outros parâmetros. Para isso, utiliza-se um tubo de inox que serve para furar o peixe e tirar uma amostra da carne. Feita na costa por um profissional especializado, a classificação é antecedida por outras situações, como abate e sangria sustentáveis, para que o peixe não sofra e não se altere a qualidade da carne, bem como evisceração e limpeza adequadas. A classificação é feita em praticamente 100% dos atuns com mais de 15kg. “Não é só pescar, mas fazer a manipulação correta do peixe para que ele consiga manter a qualidade por muito tempo”, cita.
“Outros estados também fazem, mas com menos detalhes do que fazemos em Natal. Esse detalhamento proporciona ao dono do peixe e exportador conseguir fazer uma avaliação bem feita para poder direcionar melhor o peixe dele”, acrescenta.
No Estado, a classificação é feita há pelo menos 20 anos e sendo aprimorada ano a ano, com capacitações e instruções de novos profissionais habilitados para o processo. Segundo o presidente do Sindipesca-RN, Gabriel Calzavara, as metodologias utilizadas na pesca de atum no Rio Grande do Norte fazem com que o Estado lidere as estatísticas de exportação e quantidade de pesca de atum no Brasil. “O que influencia para que tenhamos um preço melhor é justamente a forma de captura, a manipulação a bordo, armazenamento, classificação e cuidado com o peixe”, justifica.
Setor busca ampliar pesca longline
Técnica aplicada pela frota atuneira de Natal, a pesca com a técnica de espinhel longline está passando por uma pesquisa para ampliar ainda mais sua capacidade de pesca no Rio Grande do Norte. A informação é de Gabriel Calzavara, presidente do Sindicato da Indústria da Pesca no RN (Sindipesca-RN). Orçado em R$ 6 milhões, o projeto busca “afundar” cada vez mais as boias para pescar peixes cada vez maiores. Além disso, a Federação da Indústria do Estado do Rio Grande do Norte (Fiern) está conduzindo uma pesquisa para mapear a cadeia pesqueira atuneira do Estado.
A tecnologia estudada consiste em afundar as boias para a zona mesopelágica do oceano, entre 200 a 1.000 metros de profundidade. Atualmente, no espinhel longline, o máximo que se consegue é chegar a 150 metros de profundidade. Nesse sentido, a captura fica limitada a fase da lua cheia, quando os atuns sobem para comer mais raso. A expectativa é de que o projeto piloto seja colocado em prática a partir do ano que vem.
“Se conseguirmos afundar nossas boias, neste ambiente só vamos capturar peixes adultos, grandes e de 50 a 60kg; diminui a quantidade de fauna acompanhante, ou seja de peixes capturados acidentalmente, isso significa que vamos ter um impacto ambiental menor, pois vamos pescar peixes que já fizeram a reprodução e vamos diminuir a pesca acidental, que é de preservar espécies que não deveriam ser capturadas. E do ponto de vista financeiro, teremos peixes maiores, de melhor qualidade e uma rentabilidade maior”, explica.
O projeto está sendo estudado nos últimos meses por pesquisadores do Senai-BA, UFRN e Sindipesca, bem como apoio institucional da Federação das Indústrias do RN (Fiern). “Estamos trabalhando com a Fiern para nos apoiar nessa difusão de tecnologia que vai revolucionar tudo”, acrescenta Gabriel. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO) e o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) poderão participar em breve.
Em paralelo a esta pesquisa, a Fiern também está trabalhando em outro levantamento com o intuito de dimensionar a cadeia pesqueira do Rio Grande do Norte. A ideia é fomentar um polo atuneiro no Estado e prospectar possibilidades de negócios no RN, agregando ainda mais valor ao atum potiguar. Os trabalhos acontecem desde o início do ano.
“Já tivemos várias reuniões com o município de Areia Branca para tentarmos entender essa pesca, até para entendermos se esse polo atuneiro será em Areia Branca ou em Natal. Precisamos ter os números de Areia Branca que atualmente são escassos”, explica Ana Adalgisa Dias Paulino, coordenadora executiva de Relações Institucionais e com o Mercado da Fiern. “Fomos chamados pela Prefeitura para fazer esse estudo e vamos à campo para pegar esses dados. Lá é um potencial grande, mas faltam dados primários. Tem muitas empresas e pescadores. Vamos pegar esses dados e organizá-los e ver o que será melhor para a indústria”, acrescenta Fernanda Lemos, analista técnica do Mais RN.
A pesca atuneira
Principais modalidades adotadas no mar do RN
Pesca de cardume associado tem se mostrado produtiva
Responsável atualmente por cerca de 70% da pesca de atum do Rio Grande do Norte, a modalidade de pesca de cardume associado tem crescido ano a ano no Estado. Com foco na região de Areia Branca, mas já abrangendo outras cidades, a “pesca de sombra” como também é conhecida é responsável pela pesca de atuns com foco na indústria de enlatados na maior parte das pescarias e para exportação do mercado de sushi e sashimi, com cerca de 30%. Do total do pescado pelo cardume associado, cerca de 60% representam atuns juvenis.
“É uma pesca diferenciada. A pesca do cardume tende a ser mais ativa. Enquanto o espinhel tenta localizar o cardume e a travessia do pescado no mar na soltura de um espinhel, o cardume fica com ele embaixo do barco. A produtividade é todo dia”, cita Vinícius Seixas, consultor técnico da Associação dos Proprietários de Embarcações de Pesca do RN (Aspern).
A modalidade chegou ao Estado em meados de 2009, mas “estourou” em 2016, com aumento dos barcos e desenvolvimento das técnicas e ampliação da capacitação dos pescadores. Atualmente, são 42 embarcações licenciadas e registradas junto à Marinha do Brasil. Cerca de 93% da frota é legalizada, segundo a Aspern. A técnica, iniciada no país no estado do Espírito Santo, foi trazida ao RN e sendo desenvolvida na região de Areia Branca. Segundo Vinícius Seixas, os peixes pescados na região são vendidos para estados vizinhos, como Ceará, e cerca de 2 a 3% para exportação.
A modalidade de cardume associado foi recentemente regulamentada pelo Governo Federal, por meio da Portaria SAP nº 248, de 16 de outubro de 2020, que estabeleceu critérios e procedimentos para os requerimentos de Permissão Prévia de Pesca e Autorização de Pesca, referente às vagas remanescentes para a modalidade de permissionamento de pesca de sombra ou cardume associado.
O consultor técnico Vinícius Seixas conta ainda que as embarcações pesqueiras do cardume associado tem investido em tecnologias, como assessoramento remoto e melhoramento de qualidade do pescado a bordo.
“Neste último caso, consiste nos treinamentos que outras culturas de atum já tiveram. Tivemos o César Calzavara aqui para ensinar os pescadores do abate correto, todo um treinamento para que se aumente as taxas de atuns de qualidade”, explica. “Tem barcos aqui em que maior parte da carga vai só para exportação, não vai para enlatamento. Claro que é uma minoria, mas já é um começo”, acrescenta.
Informa da Tribuna do Norte