
Estão colocando areia em Natal
Na ampulheta é o tempo se esvaindo, no morro é a paisagem sumindo, na engorda a esperança da praia em erosão, mas temos gente colocando areia, áspera, grossa e movediça.
Na terra das dunas o vazio e árido debate sobre a areia. Bem que o profeta nos avisou que brigaríamos até pelos mais ínfimos grãos, só não imaginava que seria literalmente.
Quem nunca escreveu o próprio nome na areia? Em Natal dificilmente um natalense não rabiscou suas iniciais na praia de Ponta Negra e lá escrevemos no destino o nosso amor por aquele lugar.
Os mais novos não mais, mas os antigos subiram, como eu, o morro do careca, que agora com amnésia, muitos já esqueceram como era aquela Natal, antes do morro ameaçar se transformar em falésia.
Aqui a única coisa que não erodiu, de lá pra cá, infelizmente, diante de tanta coisa boa que não temos mais é a mediocridade e a baixeza de nossa classe política.
Nosso destino parece com as ondas que desfazem tudo, aqui ninguém pode deixar o outro realizar nada que seja lembrado amanhã e não é porque sejamos uma terra de mar, sol e dunas, que merecemos este deserto moral.
Poxa! A draga foi embora, que droga! Nas profundezas das diferenças, do nosso verde mar, uma areia que poderia ou ainda poderá nos devolver um pouco de dignidade.
Será que é possível sonhar com um castelo de areia à beira-mar, construído pela pureza e inocência das nossas crianças?
Ahh como elas nos ensinam. Pequenas, as crianças não se importam em saber quem é o dono da bola, elas simplesmente correm e brincam, sabendo que na queda serão amortecidas pela areia fofa da praia, limpa, sem ratos, sem lixo.
É isso! Em Natal essa areia vale ouro, na praia que já tivemos um dia e podemos oferecer de volta para as novas gerações e para os turistas que vierem nos visitar, como para todos que levam dali, o sustento da família.
Por favor, não tenham um coração tão árido, não coloquem mais areia no que for bom, não atrapalhem mais.
Renato Cunha Lima é administrador de empresas, empresário e escritor